Ecologia e filogeografia da sardinha-cascuda (Harengula sp.) do Atlântico Sul Ocidental com foco em uma população insular
Ecologia espacial; Ecologia alimentar; Trindade e Matim Vaz; Fernando de Noronha; Clupeidae; Ciência cidadã.
A sardinha-cascuda (Harengula sp.), importante recurso ecológico e pesqueiro no Atlântico Sul Ocidental, foi investigada quanto à sua estrutura genética, ecologia espacial e ecologia alimentar, com foco nos arquipélagos de Fernando de Noronha (FNA) e Trindade e Martim Vaz (TMV), além da costa brasileira. Enquanto a abordagem genética abrangeu todas essas localidades, os capítulos de ecologia espacial e alimentar foram conduzidos com a população de Fernando de Noronha. Foram analisadas sardinhas de 21 localidades do Brasil, com 187 sequências da região controle do DNA mitocondrial. Foram identificadas quatro populações geneticamente estruturadas: TMV, FNA, Costa Norte e Costa Sul (análises genéticas - Geneland, φST, AMOVA). A localidade TMV apresentou alta diferenciação, baixa diversidade haplotípica e nucleotídica, indicando isolamento acentuado e possível efeito fundador; FNA revelou isolamento em relação à costa, alta diversidade haplotípica e ausência de estrutura interna comparando mar de dentro e mar de fora do arquipélago, indicando estabilidade populacional. Barreiras geográficas, como distância e profundidade oceânica, associadas a processos históricos como regressões marinhas e relevos submarinos, são sugeridos como fatores determinantes na estruturação genética observada. A sardinha cascuda em FNA é palco de conflito socioambiental há décadas e os seguintes resultados acerca da ecologia populacional na região foram essenciais para discussões aprofundadas acerca do manejo e conservação da espécie no arquipélago. No âmbito da ecologia espacial, o monitoramento participativo baseado em ciência cidadã, registrou 8.772 eventos de presença de cardumes em 17 praias de FNA, entre novembro de 2021 e abril de 2024. A análise espaço-temporal indicou maior ocorrência de cardumes em praias arenosas localizadas no mar de dentro, especialmente durante a estação seca, sem influência estatística significativa do evento climático conhecido como swell e fase lunar. Esses resultados têm implicações ecológicas e sociais relevantes, fornecendo subsídios diretos para o manejo participativo e para a tomada de decisão no arquipélago, contribuindo para reduzir conflitos socioambiental e fortalecer estratégias de conservação aliadas à subsistência da comunidade tradicional. A ecologia alimentar enfocou a análise de dieta de 183 indivíduos, em 3 classes de tamanho, comparando a composição da dieta com a disponibilidade de zooplâncton em 3 praias do arquipélago. A dieta foi composta majoritariamente por copépodes, principalmente do gênero Oithona, muito abundante no ambiente. No entanto, os índices de seletividade indicaram preferência por presas menos abundantes, como Mysidacea, sugerindo escolha por itens de maior valor nutricional. Observou-se variação ontogenética, com indivíduos menores consumindo presas pequenas e indivíduos maiores apresentando dieta mais diversificada e com presas mais móveis. A Praia do Sancho destacou-se por apresentar alta abundância de zooplâncton, reforçando sua importância ecológica como área de forrageamento prioritária para os cardumes. Esta tese apresenta uma abordagem integrada e inédita sobre a ecologia e filogeografia da sardinha-cascuda com foco em ilhas oceânicas brasileiras. Trata-se de uma espécie-chave tanto do ponto de vista ecológico quanto na interface entre conservação ambiental, justiça social e governança em território insular. Os resultados obtidos contribuíram diretamente para a revisão do Termo de Compromisso da Pesca das Sardinhas no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha (2025). A integração de dados genéticos, ecológicos e sociais forneceu uma base sólida para auxiliar políticas públicas voltadas ao manejo sustentável, segurança alimentar e valorização dos saberes tradicionais em Fernando de Noronha, a única ilha oceânica habitada do Brasil.