Frugivoria e dispersão de sementes de Cactaceae Juss. (1789) e seu papel como recursos-
chave para a fauna neotropical
Consumo de frutos; germinação de sementes; fenologia da frutificação; morfometria; conteúdo
nutricional.
A frugivoria e dispersão de sementes são processos importantes para a manutenção da biodiversidade por favorecer a colonização de novas áreas, o fluxo gênico e a manutenção da biodiversidade. Em ambientes áridos, as cactáceas se destacam por sua diversidade de espécies e formas de vida, produção de frutos zoocóricos e por ser fonte de água e nutrientes. Com base nisso, o objetivo geral desta tese foi identificar a nível global, regional e local os
principais frugívoros e dispersores efetivos de sementes de Cactaceae e descrever os traços de plantas e frutos associados ao consumo por animais. No primeiro capítulo sintetizamos o conhecimento disponível na literatura sobre a frugivoria, formas de vida, características de frutos e sementes e germinação de sementes de em Cactaceae. Encontramos 630 interações cacto-frugívoros entre 255 espécies de frugívoros, distribuídas em 21 ordens, 46 famílias e 138 gêneros, e 94 espécies de cactos, pertencentes a 35 gêneros. Em geral, Aves foi o grupo mais representativo com 146 espécies, das quais 66% pertenciam à ordem Passeriformes, responsáveis por 64% das interações. Os principais gêneros de cactos encontrados foram Pilosocereus, Stenocereus e Cereus, sendo todos esses cactos colunares. Encontramos uma elevada diversidade de formas de vida e alturas de cactos, cores, formas e cores de frutos e sementes. Principalmente as interações se deram com cactos arbóreos, frutos carnosos dehiscentes com sementes pequenas de 0.6 mm a 4 mm de comprimento. Aves e mamíferos consumiram principalmente frutos vermelhos de polpa branca. A passagem das sementes pelo trato intestinal de aves, principalmente Passeriformes, aumentou significativamente o percentual de germinação de sementes. Além disso, as sementes germinaram 46% mais rápido após a passagem pelo trato intestinal de aves, mamíferos e répteis. No segundo capítulo, investigamos a fenologia da frutificação, morfometria de plantas, frutos e sementes e fizemos a caracterização nutricional de frutos em três espécies de Mammillaria (Cactaceae) no Vale de Tehuacán-Cuicatlán, México. Mammillaria produziu frutos continuamente ao longo do período de estudo, em maior ou menor quantidade, tendo o pico de frutificação sincronizado com o pico da precipitação, no mês de junho. Os frutos são vermelhos e pequenos, possuem entre 10 e 260 sementes pequenas e são ricos em água, carboidratos, proteínas e lipídios, podendo ser uma opção viável para o consumo humano e animal na região do Vale. As espécies mostraram diferenças sutis, mas significativas, nos atributos morfológicos (altura e largura da planta, comprimento do espinho, tamanho e peso do fruto e tamanho das sementes). Apesar de possuírem estratégias ecológicas sutilmente distintas, as características dos frutos (cor, tamanho e forma) parecem estar associadas à zoocoria (dispersão por
animais). No terceiro capítulo, investigamos a frugivoria, utilizando armadilhas fotográficas, e a dispersão de sementes, através de testes de germinação de sementes após a passagem pelo trato intestinal de animais, em três espécies de Mammillaria no Vale de Tehuacán-Cuicatlán, México, até então aspectos desconhecidos para o gênero. Registramos 93 eventos de frugivoria realizados por 15 espécies de vertebrados, distribuídos em seis ordens e 12 famílias, que consumiram 131 frutos diretamente das plantas. Passeriformes foi a ordem com maior número de espécies registrado. Apesar de o lagarto Teiidae Aspidoscelis sp. ter sido o mais registrado visitando e consumindo frutos de Mammillaria (N = 22 visitas), em 12 visitas, a ave cuculiforme Geococcyx velox consumiu um total de 43 frutos, em comparação à 24 frutos consumidos pelo lagarto. Em geral, as aves foram os maiores removedores de sementes por visitas, seguidos por répteis e pequenos mamíferos. No teste de germinação, 93% das sementes de Mammillaria que passaram pelo trato intestinal de animais (aves e lagartos) germinaram em condições naturais, em comparação com 1% das sementes retiradas diretamente dos frutos e 4% das sementes lavadas manualmente. Além disso, as sementes dispersas por animais germinaram mais rápido em comparação aos outros tratamentos. Como conclusões gerais desta tese, observamos que, tanto em escala global quanto local, os frutos de cactos são consumidos por uma ampla variedade de animais e que as sementes se beneficiam da passagem pelo trato intestinal, seja germinando mais ou mais rápido. As cores e formas de frutos, acompanhados de sementes pequenas embebidas em uma polpa carnosa que é rica em água e nutrientes favorece o papel das espécies de cactos como recursos-chave, principalmente em regiões áridas.