Dinâmicas da decomposição da serrapilheira em habitats: interações entre espécies, diversidade de detritos e respostas funcionais a fatores bióticos e abióticos
Decomposição da serrapilheira; efeitos não-aditivos sinérgicos e antagônicos; heterogeneidade de habitats; atributos funcionais; gradientes biótico-abiótico; SLA; interações interespecíficas; fotodegradação
A decomposição da serrapilheira é um processo ecológico essencial para a ciclagem de nutrientes, regulado por interações complexas entre fatores bióticos e abióticos, cuja modulação contexto-dependente ainda é pouco compreendida. Aqui, investigamos como a heterogeneidade espacial, a sazonalidade e a qualidade do detrito e a sua diversidade funcional influenciam as dinâmicas de decomposição em habitats com distintos fatores que modulam a decomposição. Utilizando abordagens experimentais baseadas no uso de litterbags, avaliamos: (1) a contexto-dependência dos efeitos não-aditivos da mistura de detritos foliares de espécies inquilinas sobre a decomposição de uma espécie-chave, (2) o papel interativo da diversidade de habitas e diversidade de detritos na decomposição e 3) a capacidade de atributos funcionais da serrapilheiras (i.e., traits) em prever a decomposição de detritos em condições cujo processo é mais determinado por fatores abióticos vs. bióticos. No capítulo 1, avaliamos como a decomposição da espéciechave formadora de habitat Encholirium spectabile (Macambira-de-flecha) é afetada pela serrapilheira de espécies inquilinas em três condições de habitats associados a moita de E. spectabile—dentro, borda e fora das moitas da macambira—sob variação sazonal de sequências de regimes de seca e chuva. Os resultados indicaram que dentro das moitas (microclima com menor temperatura e mais estável), misturas com folhas de espécies inquilinas aceleraram a decomposição da E. spectabile na sequência sazonal em que o detrito começa e termina a se decompor na seca. Possivelmente, isso ocorreu devido a mistura trazer uma maior complementaridade a serrapilheira da espécie formadora de habitats, quanto ao habitat propiciar melhores condições ao estabelecimento de decompositores em regime de períodos secos. Na borda das moitas (com variação térmica e de luminosidade intermediária), sobe a mesma sequência sazonal, a decomposição da E. spectabile também foi acelerada, indicando complementaridade entre uma decomposição biótica e a fotodegradação. Já fora das moitas (alta variação de temperatura e luminosidade constante), a decomposição da serrapilheira da macambira foi inibida (i.e., desacelerou) na presença da serrapilheira das espécies inquilinas, tanto na sequência sazonal em que o detrito começa e termina a se decompor na seca quanto na chuva. Isso, devido a uma possível interferência de liberação de compostos inibitórios aos decompositores, como também, a um sombreamento que atrapalhou o processo de fotodegradação. No capítulo 2, testamos como os efeitos da diversidade de detritos são modulados pela diversidade de habitats. Contrário à nossas hipóteses, nossos resultados demonstraram que a nível de assembleia (i.e., decomposição total de todas as espécies em mistura), efeitos positivos da mistura na decomposição ocorreram quando o detrito se decompôs em um único habitat onde fatores ambientais similares prevaleceram e efeitos negativos ocorreram quando o detrito se decompôs em diferentes habitats em que a maior diversidade (variabilidade) de fatores ambientais ocorreu. Assim, mostrando que a diversidade de habitats gerou efeitos que podem ter anulado ou diminuído padrões de complementaridade da mistura de detritos. Por outro lado, a nível de espécie-específico a interação entre diversidade de habitats e de detritos variou dependendo da qualidade do detrito. Espécies com maior SLA tenderam a efeitos antagônicos, comparados a espécies com menor SLA em habitats mais diversos. Esses resultados revelam possíveis mecanismos dependentes da diversidade de habitats, além daqueles descritos apenas pela diversidade de detritos. Por fim, no capítulo 3, identificamos os traits químicos e físicos que melhor predizem a decomposição em habitats dominados por fatores bióticos vs. abióticos, como também, os que melhor predizem a diferença relativa nas taxas de decomposição de diferentes espécies entre os habitats sombreados e expostos ao sol. Observamos que, em habitats onde predominam fatores bióticos sobre a decomposição (habitats sombreados sob a vegetação), a decomposição esteve associada a traits relacionados à palatabilidade para os decompositores. Já em habitats sob forte influência de fatores abióticos (habitats expostos ao sol e sem vegetação), além de traits químicos, traits físicos foram críticos para a decomposição da serrapilheira. Porém, ao contrário do que prevíamos, os traits que melhor explicaram a diferença entre a decomposição nos habitats não estão ligados somente ao habitat que mais influenciou a decomposição da serrapilheira. Em síntese, os resultados dos três capítulos demonstram que os efeitos não-aditivos da mistura e a relevância de traits específicos são altamente dependentes do contexto ambiental, sendo modulados pela interação entre diversidade de detritos, heterogeneidade de habitats e fatores ambientais. Através desses resultados observamos a importância de integrar escalas espaciais, sazonais e funcionais em modelos preditivos do processo de decomposição.