O SILÊNCIO DOS INVISÍVEIS: COMO AS MUDANÇAS BENTÔNICAS AFETAM A DIVERSIDADE BETA DE PEIXES RECIFAIS CRIPTOBENTÔNICOS NO ARQUIPÉLAGO DE FERNANDO DE NORONHA
Ictiofauna críptica; substrato marinho; diversidade beta; mudanças temporais; espécies indicadoras
Peixes criptobentônicos (CRBs) são componentes fundamentais da biodiversidade recifal, exercendo papel chave na transferência de energia e na estabilidade ecológica dos ecossistemas costeiros. Contudo, seu pequeno porte e hábitos crípticos dificultam o monitoramento contínuo e a avaliação dos impactos ambientais sobre essa assembleia da ictiofauna recifal. Estudos recentes têm reforçado a relevância desse grupo, que frequentemente inclui espécies endêmicas, sobretudo em ilhas oceânicas, o que torna sua conservação ainda mais crítica. Este estudo avaliou variações temporais na densidade, riqueza e composição de CRBs em dois períodos distintos, em 2000 e 2023/2024 no Arquipélago de Fernando de Noronha, correlacionando tais parâmetros ecológicos com a estrutura do substrato bentônico. Foram analisadas 13 espécies pertencentes a quatro famílias de CRBs, Gobiidae, Blenniidae, Labrisomidae e Tripterygiidae, por meio de censos visuais padronizados em 14 áreas ao redor do arquipélago, com aplicação de 10 quadrantes em cada área durante quatro expedições em 2023 e 2024. Em cada quadrante foi registrado o número de CRBs e a frequência de ocorrência do substrato bentônico (categorizada ordinalmente como ausência, baixa, média e alta frequência). Os dados atuais foram comparados a um estudo pretérito conduzido em 2000, permitindo identificar mudanças de longo prazo e avaliar tendências históricas na estrutura recifal, aspecto essencial para compreender a resiliência ecológica e os efeitos acumulados de pressões antrópicas e climáticas. As análises multivariadas (PCA, PERMANOVA, NMDS, RDA), associadas a modelos GAMLSS e métricas de diversidade beta (Whittaker) indicaram mudanças significativas na cobertura do substrato recifal, com substituição de organismos construtores por tapetes de algas e maior abundância de cianobactérias. Essas alterações se refletiram em uma reorganização das assembleias de CRBs, com aumento da abundância total, redução da variabilidade espacial e homogeneização taxonômica. A análise de espécies indicadoras evidenciou a substituição de táxons especializados por espécies generalistas e mais tolerantes. Os resultados apontam para um processo de simplificação estrutural do habitat recifal, impulsionado por pressões antrópicas e mudanças climáticas, com implicações diretas na resiliência e no funcionamento ecológico das comunidades de peixes criptobentônicos. Além disso, esta pesquisa atende a uma demanda do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão ambiental responsável pela gestão da área, trazendo recomendações voltadas ao fortalecimento da conservação nas Unidades de Conservação (UCs) do arquipélago, ressaltando a importância do monitoramento de longo prazo e da preservação de micro-hábitats como estratégia fundamental na manutenção da biodiversidade funcional em ambientes marinhos.