DINÂMICA OSCILATÓRIA CORTICAL E MARCHA APÓS PEDALAR NA DOENÇA DE PARKINSON
Doença de Parkinson; Marcha; Oscilações Corticais; Pedalar
Muitos indivíduos com Doença de Parkinson (DP), apesar dos graves déficits motores e do congelamento de marcha, preservam a habilidade de andar de bicicleta sem dificuldades. Isso ainda é uma questão em aberto para a compreensão sobre como opera a rede neural da locomoção. As oscilações beta dos gânglios da base e córtex sensório-motor encontram-se alteradas na DP, exibem uma sincronização exacerbada durante o movimento e ocasionam sinais e sintomas motores da doença. Desde 2010, estudos têm mostrado que essas oscilações beta são suprimidas ao pedalar. Andar de bicicleta também traz benefícios motores e não-motores na DP. O objetivo deste estudo foi compreender os efeitos imediatos de pedalar uma bicicleta na marcha e oscilações corticais em pessoas com a DP. Trata-se de um ensaio clínico simples-cego e randomizado. Para isso,foi realizado um protocolo alternado de repouso em pé e movimentos de andar e pedalar bicicleta estacionária em baixa cadência (40-50 rpm). Este consistiu em duas fases: (I) prospectiva aguda pré e pós intra sujeito (sessão única onde todos os participantes receberam mesma intervenção - pedalar por 2 minutos) e (II) subsequente de grupos paralelos randomizados. Características de marcha e dados eletrofisiológicos das pessoas com DP foram testados na fase I: antes (Gait 1) e após pedalar pela 1ª vez (Gait 2). Na fase II, em 2 grupos randomizados, o Pedal1x e Pedal2x que, respectivamente, fizeram repouso e pedalaram pela 2ª vez. Para coleta foi usada a passarela eletrônica de marcha Zeno (5 metros) e a cadência foi a preferida. O sinal eletrofisiológico foi coletado por eletroencefalograma (EEG) no couro cabeludo de 16 canais, no padrão internacional 10-20. Para o protocolo foi confeccionado o sistema Park Bike de sincronização de cadência em bicicleta e interface interativa. O feedback visual da cadência era apresentado em tela de TV e em tempo real ao pedalar. Foram encontradas 20 características de marcha com diferenças ao comparar antes e após pedalar (Gait 1 vs Gait 2), espaço-temporais e relacionadas à pressão. A média da velocidade aumentou de 63.5 cm./seg. para 72.5 cm./seg. (p < 0,001) e a cadência aumentou de 95.3 passos/min para 98.8 passos/min (p < 0,001) após pedalar. O comprimento da passada teve aumento de 79.7 cm para 86.97 cm (p=0.003) acompanhado da diminuição nas médias dos tempos de passada de 1.28 seg. para 1.23 seg. (p < 0,001) e de suporte duplo total de 0.49 seg. para 0.44 seg. (p=0.002) após pedalar. As potências em beta e gama baixa foram suprimidas em áreas frontais (F3 e FCz) e córtex motor primário esquerdo (C4) na marcha após pedalar. Após repetir o movimento de pedalar, a marcha mostrou modulações em alfa e beta nas regiões frontais, sensório-motoras e visual em comparação a pedalar uma vez. Após pedalar, a marcha tornou-se mais rápida, com passos maiores, menos tempo de suporte e mais simétrica. Além de menor demanda cortical e melhor automaticidade ao andar. Isso pode auxiliar na compreensão de como opera a dinâmica oscilatória cortical de pessoas com DP após pedalar e os efeitos na marcha. Também pode embasar futuras implementações clínicas com uso de bicicleta para melhorar a marcha de pessoas com a doença, bem como políticas de saúde e mobilidade públicas de acesso democrático ao uso da bicicleta para essa população.