Microplásticos e peixes marinhos: efeitos fisiológicos e comportamentais da exposição aos microplásticos em Stegastes fuscus e Oryzias melastigma.
poluição marinha; ecotoxicologia; comportamento animal; ecossistemas recifais
A liberação contínua de partículas plásticas nos ecossistemas marinhos tornou-se um dos desafios ambientais mais urgentes do século XXI, afetando organismos em múltiplos níveis biológicos e comprometendo a integridade ecológica dos oceanos. A gravidade desse problema mobilizou esforços globais liderados pelas Nações Unidas (ONU) e por diversas agências ambientais internacionais, que buscam implementar medidas concretas para mitigar a poluição marinha e conter seus impactos crescentes. Nesse contexto, esta tese teve como objetivo integrar abordagens observacionais e experimentais para aprimorar a compreensão de como diferentes classes de microplásticos afetam a saúde de peixes marinhos em escalas ecológicas, fisiológicas e comportamentais. Esse arcabouço integrativo conecta observações ambientais de longo prazo com experimentos controlados em laboratório, oferecendo uma avaliação abrangente dos efeitos da poluição plástica que combina relevância ecológica com entendimento dos processos biológicos.
O estudo começou com o monitoramento de um recife costeiro localizado na cidade de Nísia Floresta, Brasil, onde foi avaliada uma população natural de Stegastes fuscus — uma espécie territorial que desempenha um papel fundamental na estruturação das comunidades recifais que habita. Esse comportamento territorial permitiu que a espécie fosse utilizada como um possível indicador de variações ambientais no recife, possibilitando inferir, ao longo de um ano completo de amostragens mensais, como fatores naturais e pressões antrópicas moldam a saúde desses organismos. As análises revelaram padrões sazonais na condição corporal e variações na frequência de anormalidades nucleares eritrocitárias, associadas a interações entre eventos climáticos (chuvas) e a intensidade de atividades humanas, como o turismo. O estudo resultou em uma das primeiras séries temporais ecotoxicológicas contínuas para uma espécie de peixe recifal no Brasil, estabelecendo uma referência biológica para avaliações futuras e demonstrando o potencial de S. fuscus como indicador de qualidade ambiental em ecossistemas recifais.
Na segunda etapa, experimentos laboratoriais foram conduzidos com S. fuscus para investigar os mecanismos fisiológicos e celulares afetados pela ingestão crônica de microplásticos. Durante quatro meses de exposição, os peixes foram alimentados com uma dieta contendo microplásticos virgens de polietileno de baixa densidade (LDPE). Embora o crescimento e o desempenho comportamental não tenham sido afetados, a exposição prolongada resultou em desequilíbrio oxidativo e aumento nas frequências de anormalidades nucleares, indicando que a ingestão de microplásticos pode induzir efeitos deletérios mesmo na ausência de contaminantes adsorvidos. Esses efeitos subletais evidenciam o início precoce de estresse fisiológico em peixes recifais e sugerem que a ingestão de microplásticos pode comprometer a resiliência dos organismos sob estressores ambientais prolongados ou combinados.
Na fase final, foram realizados experimentos com Oryzias melastigma (medaka marinho), um modelo amplamente utilizado na ecotoxicologia marinha, para avaliar os efeitos de uma mistura complexa de microplásticos — partículas de desgaste de pneus (TWPs). Uma exposição parental crônica de 4 meses permitiu avaliar comportamento, desfechos reprodutivos e impactos no crescimento e desenvolvimento da prole (F1). Os resultados demonstraram que a ingestão de TWPs atua como um potencial desregulador endócrino com consequências transgeracionais, incluindo prejuízos reprodutivos, como redução da viabilidade dos ovos e diminuição das taxas de fertilidade.