AVALIAÇÃO DE UM PROTOCOLO DE REABILITAÇÃO DO USO DE FERRAMENTAS PARA MACACOS PREGOS RESGATADOS (SAPAJUS SPP.): O PAPEL DA PERSONALIDADE NA AQUISIÇÃO DE HABILIDADES
Sapajus; Reabilitação; Uso de ferramentas; Cativeiro; Diferenças individuais.
Os macacos-prego (Sapajus spp.) representam o segundo gênero de primata mais comum nos Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) no Brasil, sendo a maioria vítima do tráfico de animais. A legislação brasileira prioriza a devolução desses animais ao ambiente natural, mas existe uma lacuna na literatura sobre protocolos de reabilitação que sejam detalhados. Macacos prego apresentam habilidades complexas para forrageio, como o uso de pedras pra quebrar coco, um comportamento essencial para a sobrevivência na caatinga. No entanto, animais regatados tem o desenvolvimento desses comportamentos prejudicados quando longe do ambiente natural. O objetivo deste estudo foi aplicar, adaptar e avaliar um protocolo de reabilitação para o uso de ferramentas, analisando a influência de fatores individuais como personalidade, sexo e idade no desempenho dos animais. O estudo foi conduzido no CETAS-IBAMA de Cabedelo, na Paraíba, com 23 macacos-prego (Sapajus spp.). O delineamento experimental consistiu em um período de quatro semanas de observação de linha de base, seguido pela aplicação de um protocolo de reabilitação manipulativa com 12 sessões em dias intercalados. O protocolo foi estruturado em três fases para facilitar o aprendizado: (1) oferta de sementes de macaíba (Acrocomia aculeata) inteiras; (2) oferta de sementes parcialmente quebradas; e (3) demonstração da técnica de quebra pelo pesquisador para estimular a aprendizagem. A personalidade de cada macaco foi avaliada com o Hominoid Personality Questionnaire (HPQ), respondido por três observadores. Os dados comportamentais foram analisados com Modelos Lineares Generalizados Mistos (GLMMs) para testar o efeito das variáveis preditoras (personalidade, sexo, idade, fase) nos comportamentos de interesse. A análise de personalidade revelou três eixos principais: Assertividade, Neofilia e Agradabilidade. O êxito final na tarefa (quebrar a semente e consumir o conteúdo) foi um evento raro, observado apenas 4 vezes em 3 indivíduos do sexo masculino. A Assertividade foi o fator preditor mais consistente do desempenho; macacos mais assertivos apresentaram com maior frequência os comportamentos de uso de ferramenta mais complexos ("Bater 1" e "Bater 2") e dedicaram mais tempo à manipulação e à alimentação. A adaptação do protocolo se mostrou eficaz em aumentar a motivação, evidenciado pelo aumento significativo no tempo de alimentação nas fases 2 e 3, e pela diminuição dos comportamentos mais simples e ineficazes ("Bater 0"). Por fim, o protocolo teve um impacto geral positivo, com a frequência de "Bater 2" sendo 40 vezes maior durante o período de reabilitação em comparação com a linha de base, além de um efeito de "spillover", com aumento na manipulação de alimentos durante a tarde. Nosso estudo demonstra que a personalidade, principalmente o traço Assertividade, influencia significativamente a resposta a um protocolo de reabilitação. O sucesso, mesmo raro, foi observado em um perfil específico de animal (machos assertivos). A adaptação do protocolo mostrou-se fundamental para motivar os animais e permitir que o sucesso ocorresse. A falta de sucesso na maioria dos indivíduos é consistente com a literatura, que aponta que o aprendizado de uso de ferramentas na natureza leva anos. Concluímos que a reabilitação é um processo complexo e que protocolos de "tamanho único" podem não ser eficazes. Nossos resultados indicam a necessidade de se criar estratégias mais flexíveis e personalizadas, que levem em conta a personalidade de cada animal, para melhorar o bem-estar e as chances de sucesso na preparação para o retorno à natureza.