O Estatuto Ontológico das Relações Biossemióticas: uma explicitação da metafísica na teoria de Jesper Hoffmeyer
Biossemiótica, Filosofia da Biologia, ontologia e metafísica, relações biossemióticas, naturalismo não reducionista.
O “Programa Biossemiótico” pode ser compreendido em sentido amplo como o estudo inter e transdisciplinar das variadas formas de comunicação e significação nos sistemas biológicos a partir da tese central enunciada por Jesper Hoffmeyer, um de seus principais idealizadores: “a vida é fundamentalmente fundada pelos processos semióticos”. Comprometer-se com essa tese implica reconhecer qualquer organismo (mesmo uma bactéria) como capaz de comunicação, significação e interpretação (ao menos em um certo sentido), porque essas seriam características intrínsecas e distintivas da vida. Essa proposta está em clara discordância com as visões estritamente mecanicistas e fisicalistas acerca dos organismos, segundo as quais não existe nada além de causação eficiente atuando em ou servindo para explicar o funcionamento dos seres vivos. Os adeptos desse tipo de reducionismo com tendências eliminativistas estiveram, desde a modernidade, como posição hegemônica tanto na ciência como na filosofia. Jesper Hoffmeyer argumenta que a ontologia subjacente a essas posturas produz lacunas explicativas não só epistêmicas, mas ontológicas. De acordo com ele, ontologias mecanicistas desse tipo aplicadas à Biologia têm uma consequência indesejada ao mundo que observamos e experienciamos, bem como aos resultados e estudos das Ciências Biológicas: a exclusão dos organismos não humanos do mundo natural. Se ele estiver correto, isso leva ao cenário radical no qual não podemos compreender o que é o fenômeno da vida. Hoffmeyer apresenta o “Programa Biossemiótico’’ como a solução para esses percalços, porque se dedica a promover a integração dos âmbitos intencional e físico/natural por meio de uma naturalização dos processos interpretativos em sistemas biológicos. Contudo, não é óbvio que uma nova maneira de enxergar os sistemas vivos acompanhada de uma modelagem semiótica seja suficiente para isso: enquanto não tivermos uma proposta ontológica clara da biossemiótica, o que é a vida permanece um enigma ainda nesse programa. Trata-se de um problema em aberto reconhecido por Hoffmeyer e outros biossemióticos. Esta dissertação é o primeiro passo na tentativa de solucioná-lo: discutiremos e sugeriremos aqui o estatuto ontológico das relações biossemióticas, a entidade mais fundamental da biossemiótica. Para isso, analisaremos o texto Biosemiotics: an examination into the signs of life and the life of signs, de Jesper Hoffmeyer, considerando os debates e as ferramentas disponíveis em Metafísica Analítica, Filosofia da Ciência e Filosofia da Biologia contemporâneas para explicitar a metafísica de Hoffmeyer e fazer sentido de sua teoria.