POR UMA LEITURA MARXISTA DA PRÁXIS POÉTICA DE AUDRE GERALDINE LORDE
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O presente trabalho é constituído a partir da necessidade de uma investigação acerca da base
marxista a qual caracteriza a obra do poeta e militante afroestadunidense, Audre Lorde (1934-1992).
Os esforços são concentrados no escrutínio de seus ensaios Idade, raça, classe e sexo: mulheres
redefinem a diferença e Granada Revisitada: um relato provisório presentes na coletânea Irmã
Outsider (2021). O objetivo do estudo desses ensaios é a demonstração de como a obra lordeana se
apropria do materialismo histórico dialético o sentido de empreender uma análise concreta da situação
dos povos oprimidos pelo colonialismo, denunciando também as mazelas que o reacionarismo burguês
institui a partir a opressão sistemática de pessoas dissidentes. No primeiro capítulo explora-se o aporte
teórico lordeano a partir de seu romance Zami: por uma nova grafia do meu nome: uma biomitografia
(2020) a fim de explicitar o modo como Lorde enxerga o capitalismo como produtor de sofrimento da
sensibilidade e repressor da sexualidade das pessoas. Nessa seção do trabalho, também se demonstra
como a autora se vale da escrita como espaço de resistência aos sistemas de opressão e como as
relações que constitui ao longo de sua trajetória informam e ampliam o escopo do seu imaginário
numa perspectiva revolucionária e dissidente. Já o segundo capítulo corresponde ao momento no qual
recorre-se a autores marxistas latinoamerino e caribenho, Brian Meeks (1953–) e Nestor Kohan
(1967–) com o objetivo de trazer luz acerca da base materialista de Lorde. Meeks, com sua análise
acerca da revolução granadina auxilia a compreensão de que o conceito de autodefinição de Audre
Lorde não obedece a política de representação burguesa, mas se constitui a partir da possibilidade
concreta de autodeterminação dos povos terceiro-mundistas (racializados) do mundo. Com Kohan a o
caráter revolucionário da escrita lordeana ganha contornos ideológicos de uma ciência cuja poética não
se furta ao compromisso político, caracterizando-se como praxiologia circunscrita em Idade, raça,
classe e sexo e em Granada Revisitada. O terceiro e último capítulo da jornada deste trabalho situa
Lorde no plano de uma irmã mulherista e outra marxista, quais sejam, Cleona Hudson Weems (1945–)
e filósofa brasileira Lélia González (1935-1994). No trato com o texto de Weems objetiva-se
compreender em que medida a poeta se vincula às proposições filosóficas desta concepção
afrocentrada de pensar a política. Já ao considerar o livro Por um feminismo afro-latino-americano de
González busca-se evidenciar como a filosofia política lordeana é cúmplice do conceito gonzalino de
amefricanidade.