TRAJETÓRIAS DE MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA E MEDIAÇÕES INSTITUCIONAIS: UMA ETNOGRAFIA NA AMPAR (PARNAMIRIM/RN)
violência de gênero; etnografia; redes de proteção; políticas públicas; organizações sociais; AMPAR.
Esta dissertação analisa a atuação da Associação de Amparo às Mulheres (AMPAR), no Rio Grande do Norte, no enfrentamento à violência de gênero, a partir de uma abordagem etnográfica centrada nas práticas de acolhimento, orientação e acompanhamento de mulheres em situação de violência. Compreendida como fenômeno estrutural, a violência de gênero é analisada em sua articulação com relações de poder que atravessam corpos, territórios e instituições, em diálogo com autoras como Heleieth Saffioti, Joan Scott, Judith Butler, Patricia Hill Collins, Rita Segato e Veena Das. O trabalho de campo foi desenvolvido por meio de observação participante nas atividades institucionais da AMPAR, incluindo atendimentos e as oficinas do projeto “Sempre Vivas”, concebido como uma arquitetura metodológica que articula escuta qualificada, formação coletiva e produção compartilhada de sentidos. As oficinas constituíram espaço privilegiado de construção de narrativas, evidenciando como as experiências de violência são vividas, interpretadas e ressignificadas no cotidiano. A análise demonstra que a AMPAR opera como um nó intermediário na rede de proteção às mulheres em Parnamirim, mediando o acesso aos serviços formais e traduzindo demandas institucionais em práticas acessíveis às mulheres atendidas. Tal atuação evidencia que a rede de enfrentamento não se configura de forma linear ou exclusivamente estatal, sendo constituída por relações, negociações e práticas situadas. Ao evidenciar a centralidade das organizações sociais na efetivação das políticas públicas, esta dissertação contribui para uma compreensão situada das redes de enfrentamento à violência de gênero, destacando o papel das práticas de cuidado, escuta e mediação na produção de respostas concretas às violências vividas.