Vaqueiro de Gibão e a produção territorial do tempo
antropologia visual; território, duração; ente, vaqueiro de gibão.
Este projeto de tese investiga a prática do vaqueiro de gibão no Seridó potiguar por meio de uma etnografia visual de longa duração, desenvolvida ao longo de mais de uma década, na qual fotografia e antropologia se articulam como método e campo relacional.
A tese parte do princípio de que a continuidade territorial não é uma tradição estática, mas uma produção relacional e situada que emerge da interação entre corpo, técnica, animal e ambiente, aproximando-se da noção de duração como fluxo qualitativo. O tempo, nessa perspectiva, não antecede a prática, mas é produzido na própria experiência da lida cotidiana.
O foco central é a noção de ente — categoria ontológica relacional na qual a imagem fotográfica deixa de ser mera representação e passa a operar como presença ativa que articula memória, circulação social e reconhecimento cultural. O ente não é o vaqueiro, nem a fotografia, nem a memória que ela ativa: é a configuração relacional que os três produzem juntos quando a imagem passa a habitar as relações sociais.
A estrutura do trabalho organiza-se em torno de quatro eixos complementares: a produção relacional da continuidade no território (Cap. 1); a mediação imagética e o papel constitutivo da fotografia no campo etnográfico (Cap. 2); a circulação das imagens e sua redistribuição em diferentes escalas de reconhecimento, incluindo a emergência dos guardiões das imagens como categoria relacional (Cap. 3); e as condições de patrimonialização do ofício do vaqueiro de gibão, investigando como a imagem participa da inscrição dessa prática em regimes institucionais de reconhecimento cultural (Cap. 4).
A pesquisa contribui para os debates contemporâneos em antropologia do tempo, antropologia da imagem e ontologias relacionais, mobilizando uma perspectiva latino-americana — com especial atenção às noções de ch'ixi (Rivera Cusicanqui) e biointeração (Bispo dos Santos) — para questionar as distinções modernas entre imagem e representação, sujeito e presença, território e circulação.