Frojando mundos: arte, cosmotécnica e agência no fazer cerâmico de mulheres Kariri-Xocó em Alagoas
Agência; Antropologia da Arte e da Técnica; cosmotécnica; estéticas indígenas; mulheres Kariri-Xocó.
Esta tese emerge de uma inquietação no campo da arte indigena no Brasil, especialmente nos modos de compreensão das produções materiais no Nordeste. Ao acompanhar tais produções, evidencia-se a necessidade de revisar enquadramentos conceituais que separam arte e utensílio, estética e vida social, pensamento e técnica, a fim de apreender a complexidade das práticas que lhes dão forma. Nesse contexto, coloca-se a questão norteadora: por que algumas mulheres Kariri-Xocó fazem louça? A investigação toma o fazer cerâmico como uma prática situada, permitindo compreender como diferentes dimensões da vida coletiva se atualizam no trabalho com o barro. Entre os Kariri-Xocó, em Alagoas, a modelagem da cerâmica constitui uma prática simultaneamente estética, técnica e cosmopolítica, na qual se engendram relações entre humanos e não humanos. A cerâmica configura-se, assim, como uma técnica inseparável das orientações morais e das concepções de mundo que a atravessam, compondo, nos termos de Yuk Hui(2023), uma cosmotécnica que oferece o horizonte que revela o fazer cerâmico como técnica situada em um cosmos e uma moral próprios A pesquisa etnográfica foi conduzida a partir de uma participação engajada, com a pesquisadora atuando como assistente e aprendiz de louceira. Tal posicionamento possibilitou aprender fazendo, por meio do acompanhamento direto das mulheres Kariri-Xocó em todas as etapas do processo cerâmico. A imersão prática orientou um trabalho fundamentado na experiência, no qual o conhecimento foi produzido no entrelaçamento entre corpo, técnica e convivência. Isso permitiu descrever a cadeia operatória (Lemonnier, 1992, 2013 e Coupaye 2017, 2021) como um processo vivido, permeado por sentidos estéticos, afetivos e cosmológicos. O arcabouço teórico articula autores que, a partir de diferentes perspectivas, convergem na crítica às separações entre arte, técnica e ontologia. A noção de cosmopolítica (Stengers, 2018; De la Cadena, 2024) orienta a compreensão das relações entre humanos e outros seres como parte de um campo ampliado de existência, no qual múltiplos agentes participam da constituição do mundo. Em diálogo com essa abordagem, a ideia de correspondência (Ingold, 2022) enfatiza o fazer como um processo relacional, no qual o gesto técnico se configura como uma forma de atenção e engajamento com a matéria. Nesse horizonte, a agência estética (Gell, 2020) e o conceito de corpo-arte (Lagrou, 2003, 2008, 2010, 2018) permitem compreender a cerâmica como mediadora entre dimensões sociais e espirituais, evidenciando sua capacidade de agir e produzir efeitos nas relações. Por sua vez, o regime estético do sensível (Rancière,2009) explicita a dimensão política dessas práticas ao destacar como formas de visibilidade e partilha do sensível estão implicadas na produção de mundos. Esses aportes, em conjunto, sustentam uma abordagem que compreende o fazer cerâmico como prática relacional, situada e constitutiva de modos de existência.