A gente não precisa de polícia, a justiça somos nós": Autonomia Jurídica e o Rito de Mediação no Rancho Calon
Calon; Pluralismo jurídico; Racismo estrutural; Sujeição criminal; Antropologia jurídica.
O presente trabalho analisa a cultura jurídica dos ciganos Calon nas cidades de Serra Negra do Norte e Cruzeta (RN), examinando as tensões existentes entre suas práticas autônomas de resolução de conflitos e o sistema jurídico estatal brasileiro. A pesquisa articula abordagem etnográfica e autoetnográfica, valendo-se de observação participante, entrevistas abertas e acompanhamento cotidiano das interações entre ciganos e instituições públicas. Partindo de referenciais como Silvio Almeida, Michel Misse, Boaventura de Sousa Santos, Roberto Kant de Lima e Erving Goffman, o estudo discute como o racismo estrutural, a sujeição criminal e o epistemicídio moldam a experiência dos Calon, produzindo estigmas, violências simbólicas e limites de acesso à justiça estatal. A investigação descreve o funcionamento interno dos ranchos, destacando a centralidade da oralidade, da autoridade moral dos mais velhos e da mediação familiar na solução das “rixas”. Evidencia-se que a justiça Calon constitui um sistema normativo próprio, orientado pela restauração da harmonia e pela preservação da coesão familiar, configurando um caso de pluralismo jurídico. No diálogo com o Estado, observa-se a persistência do medo institucional, da desconfiança mútua e de práticas de invisibilização que dificultam a efetivação de direitos básicos. Conclui-se que compreender a justiça Calon é fundamental para pensar políticas públicas interculturais e para reconhecer a legitimidade dos saberes jurídicos tradicionais frente à ordem estatal.