Saberes tácitos e decisões técnicas em co-laboração no projeto arquitetônico: proposição de uma ferramenta heurística a partir de estudo empírico no semiárido potiguar
co-laboração; processo projetual; ferramentas projetuais; saberes tácitos; Caatinga.
A tese sustenta que a participação de pessoas sem formação técnica institucional em arquitetura pode ser ampliada nos processos projetuais, inclusive em aspectos técnicos e tecnológicos, por meio de ferramentas intuitivas e estratégias co-laborativas que convertem saberes tácitos e conhecimentos situados em força ativa de projeto, favorecendo soluções mais contextualizadas, viáveis e emancipadoras. Tradicionalmente, a participação de não especialistas tem sido restringida a aspectos funcionais da edificação, enquanto outras decisões permanecem sob o domínio técnico. Nesse contexto, questiona-se se essas pessoas podem transcender tais limites e incidir sobre dimensões além da função. A hipótese central sustenta que o campo de atuação de não especialistas em projeto de arquitetura pode ser ampliado quando o processo projetual é apoiado por ferramentas que operam de modo intuitivo e incorporam estratégias heurísticas para lidar com determinadas questões técnicas e tecnológicas. Nesse sentido, o objetivo é compreender se e como pessoas sem formação especializada são capazes de conceber soluções para problemas do cotidiano que envolvem aspectos técnicos e tecnológicos, quando participam de processos projetuais mediados por ferramentas intuitivas e por práticas de co-laboração. Para isso, adotou-se o estudo de caso com um grupo de mulheres do assentamento Modelo II, em João Câmara/RN, no semiárido potiguar, por meio de uma abordagem de pesquisa-ação que compreendeu oficinas projetuais do tipo charretes. As oficinas foram mediadas por uma ferramenta física desenvolvida especificamente para essa finalidade, voltada a projetos com estruturas em madeira da Caatinga para equipamentos de apoio à produção e à geração de energia fotovoltaica. Os resultados demonstraram que a ferramenta promoveu reflexão-na-ação, autoaprendizado, experimentação, compreensão do comportamento estrutural e mobilização de estratégias projetuais análogas às utilizadas por arquitetos, culminando na formulação do duplex produtivo, posteriormente validado por mockup em escala real. Ao tornar inteligíveis determinados aspectos projetuais, a ferramenta também produziu novas formas de exclusão, exigindo um tipo específico de condução do processo: as assessorias. Disso decorre a formulação do termo “assessoria co-laborativa”, abordagem apoiada na pedagogia freiriana que redefine o papel do arquiteto, de provedor de soluções a mediador sociotécnico. Concluise que a instrumentalização de saberes tácitos, aliada à mediação co-laborativa, amplia o envolvimento de não especialistas nas dimensões técnicas e tecnológicas do projeto, desafia a segmentação tradicional do conhecimento e favorece agência política e soluções contextualizadas, embora tais resultados permaneçam condicionados às circunstâncias em que a pesquisa foi conduzida.