ENTRE TRILHOS E DRAGÕES: INVASÕES SIMBÓLICAS E TENSÕES TERRITORIAIS NOS PROCESSOS DE CRIAÇÃO DE MUSEUS EM FORTALEZA
políticas culturais; museu-território; museologia social; arquitetura monumental.
Esta dissertação investiga a relação entre arquitetura, política cultural e território a partir da implantação de grandes equipamentos museais em Fortaleza, com ênfase no Complexo Cultural Estação das Artes e no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. A pesquisa parte da problematização da inserção do equipamento cultural na antiga estação ferroviária João Felipe, situada no entorno do bairro Moura Brasil, buscando compreender como essa intervenção se articula a dinâmicas históricas mais amplas de produção do espaço urbano. O objetivo do trabalho é analisar, por meio de um movimento regressivo-progressivo, como a implementação desses equipamentos se insere em trajetórias anteriores de institucionalização cultural na cidade, evidenciando que os museus em Fortaleza frequentemente emergem vinculados a projetos de governo e a processos de reestruturação urbana. Argumenta-se que esses equipamentos não operam de forma isolada, mas integram estratégias de reorganização territorial que atravessam diferentes períodos históricos, especialmente as décadas de 1960, 1990 e 2020, marcos temporais explorados ao longo da pesquisa. Metodologicamente, o estudo combina análise documental, revisão bibliográfica e observação participante, articuladas pelo método regressivo-progressivo. Na dimensão progressiva, busca-se não apenas sustentar a crítica aos modelos institucionais predominantes, mas também refletir sobre possibilidades alternativas, investigando experiências de museus territorializados e práticas culturalmente situadas. Nesse contexto, propõe-se a noção de invasão museal para compreender como a recorrente implantação de grandes equipamentos culturais reconfigura espacial e simbolicamente a cidade, instaurando novas centralidades e tensionando dinâmicas sociais preexistentes. A partir desse percurso analítico, foi possível compreender que os conflitos identificados não decorrem da existência dos museus em si, mas das lógicas que orientam sua concepção, implantação e gestão. A pesquisa demonstrou que a expansão museal recente em Fortaleza integra um projeto urbano mais amplo, no qual a cultura assume papel estratégico na reestruturação neoliberal do território, articulando-se a processos históricos de produção do espaço marcados por desigualdades estruturais. Ao mesmo tempo, as experiências de museologia social e comunitária analisadas apontaram para possibilidades alternativas de musealização, baseadas na participação, no enraizamento territorial e na construção coletiva da memória. Dessa forma, a reorientação das políticas culturais para modelos mais horizontais, participativos e comprometidos com as realidades sociais e territoriais apresenta-se como caminho necessário para que os museus deixem de operar como instrumentos de invasão territorial e possam constituir espaços de encontro, escuta e transformação social.