NAMATÜ: SABERES TICUNA E A CONSTITUIÇÃO DE SENTIDOS GEOMÉTRICOS NOS GRAFISMOS TRADICIONAIS
Teoria da Objetivação. Saberes Culturais. Transformações geométricas.
A presente pesquisa situa-se no campo da Educação Matemática e toma como ponto de partida a compreensão de que os saberes se constituem historicamente nas práticas sociais e culturais. Nesse contexto, as práticas artesanais do povo Ticuna são entendidas como espaços de produção de saberes, nos quais se materializam formas próprias de perceber, organizar e significar o mundo, incluindo aspectos geométricos, simbólicos e culturais. O objetivo consiste em analisar como essa interação possibilita a emergência e a valorização desses saberes, compreendidos como produções sociais que se constituem na atividade por meio de processos de objetivação. O referencial teórico fundamenta-se na Teoria da Objetivação, conforme proposta por Radford. A pesquisa, de abordagem qualitativa e natureza interpretativa, foi desenvolvida em dois contextos empíricos: junto a artesãs Ticuna, no município de Tabatinga (AM), e com licenciandos em Matemática, no Centro de Estudos Superiores de Tabatinga (CESTB/UEA), no âmbito de uma Atividade de Ensino-Aprendizagem. A produção de dados envolveu entrevistas, registros audiovisuais, diário de campo e análise de artefatos, sendo orientada pela análise multissemiótica. Os resultados evidenciam que os saberes geométricos emergem na atividade como produções coletivas, manifestando-se por meio de regularidades, padrões e transformações presentes nos grafismos, bem como nas interações entre os participantes. Destaca-se o papel dos meios semióticos de objetivação, especialmente gestos, linguagem e artefatos, na produção de sentidos e na elaboração de conceitos geométricos. Além disso, a articulação entre práticas culturais e ensino de geometria mostrou-se potente para a ampliação das formas de abordagem dos conceitos na formação inicial de professores na Região do Alto Solimões. Como contribuição, a pesquisa reafirma a importância de reconhecer os saberes indígenas e valorizá-los, tensionando perspectivas hegemônicas da matemática escolar e ampliando as possibilidades de interlocução entre cultura e ensino de geometria.