Ensaios sobre Sistemas de Seleção Universitária
Sisu; Enem; sistemas de seleção; mobilidade estudantil; diversidade estudantil; trajetória acadêmica.
Sistemas de seleção organizam a disputa por vagas e podem alterar como as oportunidades educacionais se distribuem entre cursos e instituições. No Brasil, com a consolidação do Sisu e a crescente utilização do Enem como critério de ingresso, o acesso passou a ser articulado de forma mais integrada em escala nacional, embora com lógicas distintas nos setores público e privado. Nesse contexto, esta tese examina como essa coordenação do ingresso se relaciona ao perfil dos ingressantes, à mobilidade estudantil e às trajetórias de evasão e conclusão. O primeiro ensaio analisa em que medida a adoção do Sisu se associa a mudanças no perfil dos ingressantes e nas trajetórias de mobilidade, evasão e conclusão nos cursos públicos presenciais, com dados do Censo da Educação Superior e do Sisu (2010–2023) e estimações de diferenças-em-diferenças. Os resultados indicam redução na participação feminina em 2,2 p.p. e aumento de ingressantes por reserva de vagas em 5,1 p.p., sem mudanças consistentes na mobilidade. Observa-se também maior evasão entre os ingressantes pelo Sisu, de 2,6 p.p. no primeiro ano e 8,1 p.p. no último ano observado, além de menor conclusão em 5,7 p.p., em comparação ao vestibular. Testes de placebo não contrariam a interpretação principal dos achados. Para a participação feminina, as análises de heterogeneidade mostram redução mais acentuada nos cursos de Educação e em instituições com IGC mais elevado, enquanto a análise de interseccionalidade indica redução na participação de estudantes brancas e aumento na de estudantes negras oriundas de escola pública. O segundo ensaio examina, no ensino superior privado presencial, como a utilização da nota do Enem no ingresso se relaciona ao perfil dos estudantes, à mobilidade e às trajetórias acadêmicas. Com microdados do Censo da Educação Superior (2010–2023) e estimações de diferenças-em-diferenças, os resultados sugerem maior participação feminina (3,9 p.p.) e de jovens (9,7 p.p.), além de menor proporção de estudantes brancos (-8,5 p.p.), de egressos do ensino médio público (-15,8 p.p.) e de estudantes com financiamento (-7,6 p.p.), com aumento na presença de estudantes com apoio social (15,5 p.p.). Também nesse caso, não se observam mudanças consistentes na mobilidade. No entanto, no setor privado, o ingresso com nota do Enem se associa a menor evasão (-15,2 p.p. no primeiro ano e -9,9 p.p. no último ano) e maior conclusão (11,6 p.p.), em comparação ao vestibular. O terceiro ensaio incorpora a dimensão do tempo até evadir ou concluir. Com microdados do Censo da Educação Superior (2012–2017), a estratégia combina escore de propensão e análise de sobrevivência para examinar universidades federais e instituições privadas. Os achados indicam que, no setor federal, ingressantes pelo Sisu e pelo Enem tendem a evadir mais cedo e a concluir mais tarde, em comparação aos ingressantes pelo vestibular. No setor privado, observa-se maior permanência entre ingressantes pelo Enem, associada a menor tempo até a conclusão. Com isso, a tese contribui para o debate sobre o ensino superior ao evidenciar a relevância dos sistemas de seleção e a importância de sua articulação com outras políticas educacionais.