AVALIAÇÃO DA TAXA DE VACINAÇÃO NO BRASIL DE 2013 A 2024: CORRELAÇÃO DA HESITAÇÃO VACINAL E O USO DAS MÍDIAS SOCIAIS
Vacinação. Taxa de vacinação. Série temporal. Hesitação vacinal. Mídias Sociais. YouTube. Desinformação. Análise do Discurso.
A imunização consolidou-se como uma das intervenções de saúde pública mais custo-efetivas na redução da morbimortalidade por doenças infecciosas, sendo o Programa Nacional de Imunizações (PNI) referência internacional pela gratuidade e abrangência de seu calendário vacinal. Contudo, a manutenção dessas conquistas é ameaçada pela hesitação vacinal, fenômeno multicausal intensificado pela infodemia e pela circulação de narrativas sobre vacinação nas mídias sociais. Diante desse cenário, o presente estudo objetivou avaliar a taxa de vacinação no Brasil na série histórica de 2013 a 2024 e sua relação com as tendências sobre vacinação veiculadas nas mídias sociais, especificamente no YouTube. Trata-se de um estudo que articula três abordagens metodológicas complementares: 1) revisão sistemática da literatura, registrada no PROSPERO (CRD42024581283); 2) estudo epidemiológico observacionais de série temporal, com dados do SI-PNI/DATASUS analisado por meio dos modelos Joinpoint e Prais–Winsten e de análise espacial (Índice de Moran e LISA bivariada); 3) estudo de métodos mistos, de desenho paralelo convergente, sobre vídeos publicados no YouTube entre 2013 e 2024, combinando caracterização quantitativa de um corpus de referência de 25.579 vídeos, Processamento de Linguagem Natural e Análise do Discurso de em uma amostra de 96 vídeos classificados em quatro posicionamentos discursivos (neutro, pró-vacina, tendência à desinformação e tendência à antivacinação). Os resultados evidenciaram que a infodemia opera como determinante social contemporâneo da saúde, com potencial tanto para fragilizar quanto para fortalecer a adesão vacinal; que a vacinação de adultos no Brasil apresenta padrão predominante de estabilidade estatística associado a coberturas persistentemente insuficientes, configurando fragilidade estrutural; que a circulação de discursos sobre vacinação no YouTube é marcada por disputas de autoridade, confiança e legitimidade, com fronteiras porosas entre as posições discursivas identificadas; e que a associação exploratória entre o volume de vídeos publicados e as taxas de vacinação por imunobiológico não autoriza inferências causais, revelando-se heterogênea e mediada por determinantes político-institucionais. Conclui-se que a relação entre mídias sociais e taxas de vacinação no Brasil é multifatorial. Não foi identificada associação estatística consistente entre o volume de vídeos publicados no YouTube e as taxas de vacinação no período analisado. Contudo, a análise qualitativa e retrospectiva evidenciou que a plataforma constitui espaço de midiatização e disputa de sentidos sobre vacinação, no qual se articulam diferentes regimes de autoridade, confiança e legitimidade. Esses achados reforçam a necessidade de estratégias de comunicação em saúde coordenadas e intersetoriais, que considerem não apenas a quantidade de informações disponíveis, mas também os sentidos e contextos em que são produzidas e circulam, para o enfrentamento da hesitação vacinal.