Banca de DEFESA: JULIANA SILVA SOUZA LUZ

Uma banca de DEFESA de MESTRADO foi cadastrada pelo programa.
DISCENTE : JULIANA SILVA SOUZA LUZ
DATA : 30/03/2026
HORA: 09:00
LOCAL: Google Meet (https://meet.google.com/oap-gjkc-ddy)
TÍTULO:

Relações tróficas em praias de Fernando de Noronha: ocorrência de tubarão-limão (Negaprion brevirostris) associada a sardinha-cascuda (Harengula sp.) e conhecimento ecológico local sobre predação costeira

 


PALAVRAS-CHAVES:

ecologia trófica; interações costeiras, monitoramento participativo; etnoecologia; ilhas oceânicas

 


PÁGINAS: 105
RESUMO:

As relações tróficas desempenham papel fundamental na estruturação dos ecossistemas marinhos, regulando o fluxo de energia entre níveis tróficos inferiores e superiores. Em ambientes costeiros rasos e zonas de arrebentação, caracterizados por elevada energia hidrodinâmica, predadores de médio e grande porte exploram agregações de presas como estratégia de forrageamento. Entre esses predadores destaca-se o tubarão-limão (Negaprion brevirostris), espécie atualmente classificada como Vulnerável pela lista vermelha da IUCN e que utiliza o Arquipélago de Fernando de Noronha, uma ilha oceânica localizada a aproximadamente 350 km da costa nordeste do Brasil, ao longo de todo o seu ciclo de vida. No arquipélago, a sardinha-cascuda (Harengula sp.) é o principal peixe pelágico registrado e forma cardumes densos em águas rasas e zonas de surfe. Além de sua relevância ecológica como elo intermediário na transferência de energia entre níveis tróficos, essa espécie possui importância socioeconômica, sendo amplamente utilizada como isca na pesca artesanal. A concentração de cardumes próximos à linha de praia cria condições favoráveis a episódios de predação multiespecífica que ocorrem de forma sobreposta a atividades humanas como pesca artesanal, surfe e turismo, configurando um sistema socioecológico complexo. Este estudo teve como objetivo identificar as principais áreas e períodos de ocorrência do tubarão-limão em águas rasas de Fernando de Noronha, avaliando sua relação com a presença de sardinhas-cascuda e com variáveis ambientais, além de investigar a percepção da comunidade local sobre a dinâmica de predação costeira associada a esses eventos. O trabalho foi estruturado em dois capítulos complementares. No primeiro capítulo, analisou-se a ocorrência espaço-temporal do tubarão-limão a partir de dados de ciência cidadã oriundos do Projeto Tubarões e Raias de Noronha. Após etapas de filtragem e padronização, foram analisados 348 registros de subadultos e adultos entre 2021 e 2024, integrados a dados independentes de ocorrência de sardinhas-cascuda (8.772 registros) e a variáveis ambientais, incluindo pluviosidade, intensidade e período do swell (ondulações oceânicas de alta energia) e agrupamentos espaciais de praias. A modelagem hierárquica Bayesiana, que separou os processos de ocorrência (presença/ausência) e abundância condicional, indicou que a dinâmica da espécie é estruturada predominantemente no processo de ocorrência. A probabilidade de presença do tubarão-limão foi maior em praias arenosas do setor conhecido como “mar de dentro”, região mais abrigada do arquipélago voltada para a costa brasileira, e aumentou significativamente na presença de sardinhas-cascuda. A intensidade do swell apresentou efeito negativo sobre a ocorrência, enquanto não foram observados efeitos consistentes das variáveis ambientais sobre a abundância condicional. Esses resultados evidenciam sobreposição espaço-temporal entre agregações de sardinha-cascuda e presença do tubarão-limão, sugerindo que a disponibilidade de presas atua como fator estruturante do uso de habitat costeiro raso. No segundo capítulo, foram realizadas 63 entrevistas etnoecológicas com pescadores artesanais, surfistas e guias turísticos, abordando três dimensões principais: (1) padrões de concentração de sardinhas e fatores ambientais associados; (2) caracterização do fenômeno de predação costeira localmente conhecido como “arrufo”; e (3) influência da presença de tubarões nas atividades humanas. As respostas foram analisadas por meio de análise de conteúdo, estatísticas comparativas e modelos mistos, sendo posteriormente contrastadas com registros aéreos obtidos por drone. Os entrevistados relataram estratégias recorrentes de predação, como cercamento dos cardumes, uso da energia das ondas e facilitação entre diferentes espécies predadoras, incluindo peixes, aves marinhas, raias e tubarões. Houve elevado consenso quanto à interpretação do “arrufo” como um evento de predação conjunta ou frenesi alimentar, frequentemente identificado pela agregação de aves marinhas na superfície. As percepções sobre os tubarões variaram entre os grupos: pescadores associaram sua presença a prejuízos econômicos, surfistas relataram receio de acidentes, enquanto guias turísticos destacaram seu valor educativo e turístico. De forma integrada, os resultados evidenciam que as águas rasas do arquipélago funcionam simultaneamente como áreas de alimentação, agregação e interação trófica intensa, onde processos ecológicos e sociais se sobrepõem. O estudo demonstra o potencial da ciência cidadã e do conhecimento ecológico local como ferramentas complementares para compreender eventos ecológicos rápidos e de difícil monitoramento, contribuindo para estratégias de manejo participativo e conservação em áreas marinhas protegidas.

 


MEMBROS DA BANCA:
Externo à Instituição - JOSE GARCIA JUNIOR - IFRN
Presidente - 1378974 - LIANA DE FIGUEIREDO MENDES
Interna - 1718747 - PRISCILA FABIANA MACEDO LOPES
Notícia cadastrada em: 03/03/2026 18:12
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