PEIXES RECIFAIS E ESTUARINOS: CONTRIBUIÇÕES PARA SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL DE COMUNIDADES TRADICIONAIS COSTEIRAS DO NORDESTE DO BRASIL
Pesca de pequena escala; Pesca artesanal; Sistemas socioecológicos costeiros; Sobrepesca; Micronutrientes.
Os recursos pesqueiros constituem um elo fundamental entre a biodiversidade aquática e as populações humanas, representando um dos principais benefícios que os oceanos proporcionam às pessoas. Entretanto, ainda há uma lacuna considerável na compreensão do papel das espécies marinhas na dieta de comunidades tradicionais, especialmente em regiões tropicais. Neste estudo, avaliamos a contribuição de peixes marinhos e estuarinos para a alimentação de comunidades tradicionais costeiras no Nordeste do Brasil, com foco na oferta de
micronutrientes essenciais. Para isso, utilizamos uma abordagem que combina entrevistas semiestruturadas com famílias de pescadores e, a composição nutricional e atributos funcionais de peixes. No primeiro capítulo, investigamos a potencial contribuição da diversidade de peixes capturados em estuários do Nordeste para a dieta das comunidades costeiras. Utilizamos e comparamos informações dos níveis de cinco nutrientes (cálcio, ferro, selênio, zinco e ômega-3) em 17 espécies de peixes estuarinos, além de carne de gado, frango, porco e carne ultraprocessada. Observamos que os peixes apresentam uma ampla diversidade nutricional, com elevadas concentrações de nutrientes. Notavelmente, os peixes apresentam níveis mais altos de cálcio e ômega-3, e níveis similares de ferro, selênio e zinco quando comparados às outras proteínas de origem animal. No segundo capítulo, buscamos compreender a contribuição dos peixes marinhos para a dieta de comunidades pesqueiras e como a potencial perda de espécies capturadas na zona costeira dos estados do Rio Grande do Norte e Pernambuco pode afetar a provisão de nutrientes para essas populações. Usando as informações nutricionais das espécies calculamos o espaço nutricional ocupado pelos peixes. Em seguida, fizemos simulações de extinção local com base no tamanho corporal, nível trófico, nível de vulnerabilidade, valor nutricional e remoções aleatórias das espécies para estimar o impacto sobre o espaço nutricional. Observamos que os peixes marinhos são a principal fonte de alimentos de origem animal para os pescadores, fornecendo cerca de um terço de sua ingestão mensal de proteínas de origem animal. Os peixes marinhos também podem ser responsáveis por até dois terços da diversidade nutricional disponível para os pescadores, fornecendo principalmente cálcio, selênio e ômega-3. Além disso, com base nas simulações estimamos que a perda de um quarto das espécies pode causar reduções de mais de 70% no espaço nutricional oferecido pelos peixes. No terceiro capítulo, avaliamos o papel de peixes recifais para a segurança alimentar de comunidades pesqueiras em dois estados do Nordeste do Brasil: Rio Grande do Norte e Pernambuco. Por meio de entrevistas com famílias de pescadores, coletamos dados sobre a frequência atual de consumo de alimentos de origem animal e sobre o consumo de peixes nas últimas três décadas (1990-2020). Além disso, coletamos amostras de 17 espécies de peixes capturados nos recifes desses estados para quantificar o conteúdo de cálcio, ferro, selênio, zinco e ômega-3, e avaliar a contribuição do pescado para a ingestão diária recomendada desses nutrientes. Encontramos que os peixes são o principal recurso animal na dieta das famílias dos pescadores, sendo consumidos em média sete vezes por semana. No entanto, o consumo atual de peixes é menor que a três décadas, em ambos os estados, passando de uma média de nove para sete refeições. Os peixes recifais também podem oferecer contribuições relevantes para ingestão diária de nutrientes, em especial para selênio, ferro e zinco. Por fim, no quarto capítulo, propomos recomendações para pessoas em posições de decisão na gestão pesqueira e da biodiversidade marinha sobre a importância de incluir dados da qualidade nutricional das espécies no manejo da pesca de pequena escala. Com este trabalho, esperamos gerar evidências para que o valor nutricional dos recursos pesqueiros seja considerado em avaliações de níveis permitidos de pesca e na priorização de espécies em planos de manejo multiespécies, fortalecendo a segurança alimentar e a subsistência das comunidades tradicionais no Nordeste do Brasil.