Choques Extremos em Sistemas Socioecológicos: Impactos nos modos de vida de comunidades pesqueiras diante de um derramamento de óleo e da pandemia de COVID-19
Resiliência socioecológica; Serviços ecossistêmicos marinhos; Valoração ambiental; Ecologia humana; Pescadores artesanais.
Eventos que impactam serviços ecossistêmicos marinhos, como derramamentos de óleo, além de implicações ecológicas, comprometem fonte de renda, alimentação e bem-estar daqueles que dependem do mar, como pescadores. Paralelamente, pandemias resultam em medidas como o isolamento social, impactando atividades comerciais e meios de vida. Compreender essas repercussões exige uma abordagem abrangente. Nesse sentido, a estrutura conceitual dos sistemas socioecológicos é um arcabouço teórico que integra as esferas social e econômica à dinâmica biofísica dos ecossistemas. Essa interconexão intrínseca orienta a questão central desta tese: entender como os sistemas socioecológicos se comportam diante de grandes choques, tomando como estudo de caso a resposta de comunidades pesqueiras a um extenso derramamento de óleo e à pandemia de COVID-19. Para isso, entrevistamos 422 pescadores artesanais na costa nordeste brasileira, região severamente afetada por estes eventos. Utilizando um questionário semiestruturado, exploramos os períodos prévio, durante e posterior aos eventos, permitindo identificar mudanças nas percepções dos pescadores. Esta tese é estruturada em três capítulos, aprofundando nas abordagens cultural, econômica e social dos impactos enfrentados pelas comunidades pesqueiras. Os dois primeiros capítulos exploram a percepção dos pescadores em relação a perdas em Serviços Ecossistêmicos Culturais (CES) após os choques. No primeiro, testamos empiricamente a relação entre serviços ecossistêmicos e bem-estar proposta pelo Millennium Ecosystem Assessment, com foco na identificação de conexões entre CES afetados e componentes de bem-estar dos pescadores. Para cada choque, utilizamos um GAMM para analisar as associações com o número de CES perdidos e testes qui-quadrado para avaliar as conexões com cada categoria de CES individualmente. Padrões significativos e consistentes entre as análises indicam que as perdas de CES estão associadas a componentes do bem-estar impactados pelos choques, e não àqueles já prejudicados antes dos eventos. No segundo capítulo, exploramos a percepção da perda de CES por grupos minoritários. A partir de análises GAMM e GLMM, identificamos que pescadores em situação de insegurança alimentar e pescadoras (mulheres) relataram significativamente maiores perdas de CES. No último capítulo, investigamos o impacto dos choques na vulnerabilidade econômica de comunidades dependentes da pesca, investigando o tipo de pesca e sua cadeia de valores associada como fatores significativos para resiliência de pescadores durante crises. A tese contribui na identificação de segmentos da comunidade que merecem atenção em eventos futuros, proporcionando uma visão holística dos impactos enfrentados por comunidades pesqueiras durante eventos extraordinários. A compreensão das dinâmicas socioecológicas é crucial para o desenvolvimento de estratégias de manejo socioambiental adequadas a necessidades específicas, auxiliando na capacidade adaptativa e na mitigação dos impactos de choques extremos.