SAMBANDO NO FIO DA NAVALHA
Malandragem, Maria Navalha, Samba, Cultura Afro-brasileira; Metodologia de Samborê
Peço licença sagrada para abrir os caminhos e trazer à cena a figura da Malandra, desvendando suas origens, rastros e permanências na história. Entre fé, luta, corpo e som, ela se revela não somente como personagem, mas como entidade, arquétipo e símbolo vivo, que transita entre tempos, espaços e dimensões. No compasso do samba e da vida, desafia com graça o mundo que tenta aprisioná-la, pois sob a saia guarda uma navalha: emblema de poder, proteção e rebeldia. Na cosmovisão afro-brasileira, essa mulher é Maria Navalha, entidade de força, mistério e malícia sagrada. É sobre ela que esta pesquisa se debruça, com o objetivo de investigar a figura da malandra, representada por Maria Navalha, como expressão artística e simbólica da resistência feminina por meio das Artes Cênicas, recontando de forma expressionista seus sentidos históricos, sociais e espirituais, dando corpo e voz a uma pedagogia de liberdade e ancestralidade feminina. A partir de escutas, vivências e encontros, surge a metodologia Samborê — uma abordagem com cheiro de rua, som de tambor e memória de encruzilhada. Mais que um método, o Samborê é uma filosofia de corpo, vida e cena, que une rito e criação artística. Constitui uma prática de ensino e aprendizagem que rompe moldes rígidos e reconhece o corpo como território de saberes e experiências. Como resultado, emergem três criações artísticas: um curta-metragem, um espetáculo cênico e um livro, todos voltados à valorização das expressões afro- brasileiras e à quebra de paradigmas sociais, culturais e religiosos. Entre sambas, vielas e terreiros, Maria Navalha ensina que resistir também é dançar. O corpo, atravessado por axé e ancestralidade, torna-se instrumento de libertação. Assim, o Samborê afirma-se como prática e filosofia onde o ritual encontra a arte, e a malandra — mestra e guia — conduz nossos passos entre o sagrado e o cênico.