O ARCO DE ANIN: A ALFABETIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO ESCOLAR DE CRIANÇAS TAPUIA TARAIRIU DA LAGOA DO TAPARÁ – RN
Alfabetização; Educação Escolar Indígena; Criança; Educação Indígena;
Identidade.
A presente tese resulta de uma pesquisa que se debruça sobre a alfabetização de
crianças em território indígena, compreendida em um contexto permeado por saberes
tradicionais mobilizados por aspectos culturais, lutas históricas, preservação da identidade e
modos próprios de educar, sustentados por processos milenares de transmissão. Nesse
horizonte, as investigações fundantes dos estudos emergem de inquietações relacionadas às
práticas alfabetizadoras no âmbito do ensino escolar, entendidas como parte de um processo
formativo que possibilita a inserção dos sujeitos no universo da cultura escrita, por meio do
acesso a conhecimentos de caráter universal. A natureza da pesquisa configura-se, nesse
sentido, como qualitativa do tipo etnográfico, pela qual é realizada uma imersão no interior das
relações sociais articuladas entre as crianças pertencentes à etnia Tapuia Tarairiu e os aspectos
constituintes do seu processo alfabetizador enquanto indígenas da comunidade Lagoa do Tapará
(RN). Cujo território é partilhado, politicamente, entre os municípios de São Gonçalo do
Amarante e Macaíba. Ali, encontra-se a Escola Municipal Luís Curcio Marinho como
instituição responsável pela oferta do Ensino Fundamental I e II e trava incessantes lutas em
prol do seu reconhecimento enquanto escola indígena. Sob conhecimento de tal realidade,
surgiram questionamentos que impulsionaram as proposições investigativas da pesquisa, a
saber: como as crianças são alfabetizadas? Qual a relação entre as práticas alfabetizadoras e o
não reconhecimento da instituição enquanto escola indígena? De que modo a língua materna é
trabalhada no processo alfabetizador? Assim, o estudo se deu sob o objetivo maior de analisar
como ocorre a alfabetização na educação escolar de crianças Tapuia Tarairiu da Lagoa do
Tapará - RN. Para alcançar o mais alto grau desse entendimento, as investigações firmaram-se
em três objetivos menores: a) evidenciar as relações entre as práticas alfabetizadoras e o não
reconhecimento da instituição enquanto escola indígena; b) identificar as concepções que
fundamentam as práticas de alfabetização das crianças Tapuia Tarairiu da Lagoa do Tapará; c)
caracterizar as práticas docentes fomentadas para o desenvolvimento do processo alfabetizador
dessas crianças. A tese possui raízes fincadas nos terrenos da Educação indígena, da Cultura e
da Alfabetização como áreas do conhecimento, pelas quais perpassam as discussões
epistemológicas mais abrangentes. Nesse campo teórico, contamos com o diálogo trançado
pelos pressupostos de pesquisadores alinhados ao nosso objeto de pesquisa através de estudos
ancorados nos processos sócio culturais para melhor compreender seus fundamentos. Dentre os
quais, destacamos Bakhtin (2011), Baniwa (2006), Cagliari (1998; 2002), Ferreiro (1985; 2011;
2014), Freire (1976; 1996; 2005; 2013), Goulart (2014), Krenak (2019), Meliá (1979),
Munduruku (1996; 2009; 2012), Smolka (2008; 2020), Vygotsky (1981; 2006; 2008; 2010),
Weiz (1999) dentre outros autores, cujas ideias contribuíram para tecer a análise crítica das
compreensões sistematizadas. As quais, obtidas mediante investigações realizadas pelas
seguintes etapas metodológicas: documental, entrevista e observação participante. Como
resultado, entendemos que enquanto a égide da educação escolar indígena postula proposições
de um ensino pautado nos princípios da comunidade, a escola em questão não dispõe de
recursos e formação adequados posto que é tratada como uma extensão das escolas urbanas.
Enquanto isso, as narrativas de Anin, a alfabetizadora das crianças Tapuia Tarairiu, traduzem
concepções que deslocam seu ensino alfabetizador para um espaço de disputas pela preservação
da identidade étnica instituinte da cultura própria do seu povo. Para efetivá-las, a docente busca
superar os desafios estruturantes e pedagógicos ao realizar práticas alinhadas às dimensões da
contextualização, da territorialidade, do bilinguismo, da interculturalidade, da identidade, da
oralidade e da memória. Desse modo, alfabetizar crianças indígenas é articular saberes
vinculados às suas infâncias, línguas e pertencimentos, produzindo sentidos que, tal como um
arco, conectam escola e comunidade.