O Povo Yawanawá e as parcerias de conhecimentos entre ciência e espiritualidade
Povo Yawanawá; Parcerias de conhecimento; Ayahuasca; Mito; Saberes tradicionais; Ciência; Espiritualidade; Medicina das plantas.
Esta dissertação apresenta um estudo sobre a articulação entre saberes técnicos e míticos no modo de existência dos povos Yawanawá, habitantes da terra indígena Rio Gregório, no Acre, com base na vivência das cerimônias realizadas na Aldeia Yawaho – Pium/Nísia Floresta-RN. O objetivo foi compreender como a integração desses conhecimentos mediados pela prática da medicina das plantas produz nesses povos um bem viver e analisar se o pensamento ocidental pode aprender com essa cosmologia a cuidar da nossa casa comum. Mediante práticas de produção do conhecimento de forma mais integrada agregando humanos e não humanos aos coletivos que interagem sem hierarquização entre si na sua cosmovisão. Bem como, compreender os benefícios que as pessoas participantes alegaram terem adquirido ao entrarem em contato com a medicina das plantas, em específico, a ayahuasca. Nossa parceria entra na tradução para o mundo ocidental de como o povo Yawanawá produz saber articulando de forma intrínseca os aspectos técnicos e míticos, observando essa modulação através da medicina da Ayahuasca. Essa tradução tem relevância tendo em vista os avanços de pesquisas em laboratórios sobre a Ayahuasca, o que pode vir a se configurar em um fator de possível ameaça à manutenção do caráter sagrado desses saberes. Baseado na constatação de que, embora os povos originários disponham de sofisticados conhecimentos empíricos e práticos sobre a medicina das plantas, sua prática é frequentemente desqualificada pela ciência ocidental, que tende a separar os domínios do corpo e do espírito, da técnica e do mito. Com base no pensamento de Edgar Morin, Eduardo Viveiros de Castro, Bruno Latour, Orivaldo Lopes, Davi Kopenawa/Bruce Albert, Linda Tuhiwai, discute-se a epistemologia da complexidade e o perspectivismo ameríndio como chaves para repensar a parceria dos conhecimentos propositivos da ciência com o pensamento mítico tradicional. A partir de revisão bibliográfica e pesquisa de campo junto aos Yawanawá através da aldeia Yawaho, a análise pretende compreender de que modo o uso ritualístico da Ayahuasca integra dimensões terapêuticas, espirituais e sociais, marcando a distinção da aplicação dessa medicina ancestral, unida com o rito, versus a aplicação intermediarizada desses recursos pelo mundo ocidental. A relevância desta pesquisa consiste em evidenciar a potência de um diálogo entre regimes de conhecimentos distintos, rompendo com visões colonizadoras e apontando para novas forma de integração entre espiritualidade e ciência que poderão vir a contribuir com o bem viver planetário.