TDAH, O INCONFESSO TRANSTORNO DO NEOLIBERALISMO
TDAH; ideologia; alienação; neoliberalismo; tempo.
Esta tese se propõe identificar as razões pelas quais tem havido nas últimas décadas, um número crescente de pessoas diagnosticadas com TDAH. A questão que nos convoca a pensar e que nos tem inquietado frequentemente diz respeito à aceitação por essas pessoas desse diagnóstico, demonstrando uma eficácia do discurso psiquiátrico, apesar de ele mostrar-se insuficiente para explicar os sintomas dos quais elas se queixam. Para responder a nossas questões, optamos por uma metodologia qualitativa que contempla a análise do discurso. Escolhemos, portanto, a Análise do Discurso, do francês Michel Pêcheux, que desenvolve uma metodologia baseada no pressuposto fundamental da palavra como elemento central na construção do objeto de estudo. O uso dessa metodologia nos possibilitou analisar os depoimentos e diálogos de pessoas que se dizem com TDAH, ou suspeitam tê-lo, as quais publicaram em comunidades virtuais destinadas aos que têm esse diagnóstico, bem como a seus familiares e aos profissionais que os atendem. A escolha pelo ambiente virtual se deu na esteira dos fenômenos contemporâneos. Constatamos, a partir dos depoimentos e diálogos coletados, que o discurso ideológico veiculado pela psiquiatria cerebralizada, alinhada à ideologia neoliberal, tem como efeito fenômenos de alienação que alojam esses sujeitos sob a sigla de TDAH. Dessa maneira, eles negligenciam aspectos psíquicos e sociais implicados em seu sofrimento. Mais ainda: constatamos que o diagnóstico de TDAH tem eficácia nessa relação ideologia-alienação por ter, em sua sintomatologia, uma relação problemática com o tempo que se contrapõe ao tempo neoliberal. O TDAH é um transtorno que coloca em relevo a dimensão da pressa neoliberal, a qual, na contemporaneidade, induz os sujeitos a concluírem sem terem que compreender, credenciando-se, portanto, como transtorno emblemático de nossa época.