LULA E A DEMOCRACIA: DO SINDICATO À PRESIDÊNCIA (1980-2006)
Democracia; social-democracia; intelectuais; discursos; Lula.
Tendo liderado greves que abalaram a ditadura militar no final dos anos 1970, Lula funda um partido político, participa da campanha das Diretas Já e, como frequente candidato em eleições desde os anos 1980, levou a perspectiva do trabalho à política, contribuindo significativamente para a tardia democracia brasileira, da qual é um de seus pais fundadores. No percurso, Lula explicita como pensa a democracia em diversas entrevistas e discursos realizados antes como durante a Presidência da República. Assim, o objetivo central da pesquisa é extrair pela análise imanente dos discursos de Lula proferidos entre 1980 e 2006 a sua ideia de democracia, as determinações sociais e a finalidade. A análise revela que, em seu discurso, a democracia é uma religião civil; sua força motriz se origina na sociedade civil; é construída por trabalhadores, em oposição a intelectuais e empresários; visa inicialmente ao socialismo, mais tarde substituído por uma democracia econômica e social que favoreçam tanto os grandes como os pequenos; e, principalmente, a democracia transcende os indivíduos, os partidos e as particularidades. No final do primeiro mandato, manteve-se intocada a estrutura de produção agropecuária, pelo privilegiamento dado às exportações e a resignação da indústria a um papel subalterno. Graças à forte demanda internacional por commodities, verifica-se no período um crescimento medíocre da economia, a partir do qual se instituem programas de transferência de renda e valorização contínua do salário mínimo. Esses benefícios sociais garantem sua reeleição. Num abandono da identidade socialista, Lula aproxima-se dos marcos de uma social-democracia verde-amarelada, na busca por regular a relação entre capital e trabalho e produzir reformas mínimas em benefício dos trabalhadores. A reforma agrária não aconteceu. À diferença dos tempos do sindicato, a maior liderança operária da história brasileira deixa em termos subjetivos um legado duvidoso, guiado por uma mentalidade politicista que supervaloriza a democracia, apesar de sua impotência ante o movimento autônomo das categorias econômicas. Seu politicismo redunda em conciliações das vontades com a realidade nulificadora do autêntico mundo do trabalho e suas potencialidades. Com grotescas falsificações da tradição socialista, os intelectuais contribuíram exorcizando Marx e Lenin, cultuando Gramsci e arranjando uma democracia conservadora.