O CIRCUITO ESPACIAL PRODUTIVO DA MANDIOCA E OS USOS DO TERRITÓRIO DA PARAÍBA, NORDESTE DO BRASIL
Circuito espacial produtivo. Território usado. Mandioca. Fécula. Paraíba.
Considerar o circuito espacial produtivo da mandioca é evidenciar uma das tradições mais importantes da alimentação brasileira, dotada de grande relevância histórica, econômica e social. Em 2017, a ONU reconheceu a mandioca como um dos alimentos estratégicos para o século XXI, e, no Brasil, ela é registrada como patrimônio imaterial da culinária nacional pelo IPHAN. Inicialmente cultivada pelos povos indígenas, atualmente é produzida em todo o território nacional, fazendo do país o quinto maior produtor mundial em 2022. O beneficiamento da mandioca, antes realizado de forma rudimentar nas casas de farinha, passou também a ocorrer em agroindústrias automatizadas que utilizam fécula industrializada, oriunda principalmente da Região Sul. Nesse contexto, a Paraíba, tradicional produtora e processadora de mandioca, encontra-se em um processo de transformação. Diante disso, o objetivo do estudo é analisar o circuito espacial produtivo da mandioca na Paraíba, considerando os usos do território e a modernização do circuito produtivo. A investigação fundamenta-se na teoria do espaço geográfico e no conceito de circuitos espaciais produtivos, enfatizando a centralidade da circulação nas diferentes etapas da produção. A análise dos círculos de cooperação permite compreender as articulações entre agentes e lugares nos processos de obtenção de matéria-prima, gestão, produção, distribuição e consumo. Para tanto, adota-se a categoria analítica de território usado, entendendo o espaço como resultado das ações da sociedade, do poder público, de instituições, empresas e trabalhadores. A modernização é compreendida como um processo heterogêneo e complexo, que combina mudanças e permanências, intensificado a partir da segunda metade do século XX, com o advento do meio técnico-científico-informacional. A metodologia da pesquisa estrutura-se em três etapas complementares: a pesquisa bibliográfica, com revisão de conceitos em livros e artigos científicos; a coleta de dados estatísticos e documentais, com base em informações do IBGE e de outras instituições; e a pesquisa de campo, realizada em 17 municípios paraibanos, incluindo visitas a propriedades rurais, casas de farinha e agroindústrias de goma, com observação dos processos produtivos, registros fotográficos e entrevistas com trabalhadores e responsáveis pelas unidades. Os resultados indicam que, embora a mandiocultura possua elevado potencial como fonte de alimento, renda e desenvolvimento econômico para a Paraíba, o cultivo apresenta sinais de estagnação nas últimas décadas, em contraste com o aumento da entrada de fécula industrializada e da saída de goma de tapioca para outros estados. No período técnico-científico-informacional, as casas de farinha configuram-se como espaços híbridos, nos quais coexistem técnicas tradicionais e inovações, expressando resistência e distintos níveis de modernização. Por outro lado, as agroindústrias representam a face mais tecnificada do circuito, introduzindo novos objetos técnicos e ampliando as relações e fluxos entre diferentes subespaços. Essas transformações evidenciam a necessidade de políticas públicas que promovam a regularização das casas de farinha e fortaleçam iniciativas baseadas na cultura popular, na cooperação e na valorização do território, de modo a garantir benefícios mais amplos aos agentes envolvidos no circuito espacial produtivo da mandioca na Paraíba.