CORPO, CIDADE E PALAVRA: A PAISAGEM URBANA NA LITERATURA ROMANESCA NEGRA DE JEFERSON TENÓRIO E ELIANA ALVES CRUZ
Geografia e Literatura. Paisagem Urbana. Geografia Humanista-Cultural.
As interseções entre Geografia e Literatura possibilitam um caminhar geográfico que revela experiências geopoéticas enraizadas no vínculo afetivo da existência no mundo. A literatura, longe de ser uma fuga da realidade, atua como uma escrita plural que une experiência e criação, permitindo a construção de uma realidade em que as subjetividades do autor revelam vivências espaciais e sociais. Nessa perspectiva, ocorre uma dissolução de fronteiras entre o real e o ficcional, reconhecendo a obra literária como um plano de composição e de expressão humana que representa o social por meio da estética. A paisagem da cidade, para além de sua materialidade, ganha potência nas narrativas ao elucidar o cotidiano e constituir um imaginário de percepções individuais e coletivas. Esta tese investiga a paisagem da cidade e suas práticas espaciais sob uma perspectiva negra e racializada, a partir da análise de representações literárias fundamentadas em dinâmicas de resistência, memória, subjetividades, identidade e cultura. A cidade deixa de ser um mero cenário para se tornar o fundamento de uma investigação espaço-racial, atuando como o símbolo concreto da segregação, da habitação e da criação de trajetos e trajetórias urbanas. Esse fenômeno não apenas se espacializa enquanto paisagem urbana, mas é determinante na configuração da identidade negra no Brasil, conectando as corporeidades dos habitantes às memórias coletivas que atravessam o espaço. O recorte reside na análise de romances de autores contemporâneos, sendo eles: O beijo na parede e O avesso da pele (Jeferson Tenório) e Solitária e Meridiana (Eliana Alves Cruz). A fundamentação teórica estrutura-se nos diálogos entre a Geografia Humanista-Cultural, a Fenomenologia da Linguagem (fundada em Paul Ricouer) e estudos e pesquisas sobre raça e identidade na Geografia, buscando compreender a contribuição das narrativas literárias para a apreensão da relação entre paisagem urbana e identidade negra, propondo caminhos para racializar os estudos sobre a experiência humana na cidade.