IMPACTO DO RETENO NA INTEGRIDADE GENÔMICA E NO COMPRIMENTO DOS TELÔMEROS EM LINHAGEM CELULAR PULMONAR HUMANA
Poluição atmosférica; Hidrocarbonetos policíclicos aromáticos; 7-isopropil-1-metilfenantreno; Instabilidade genômica; Telômeros.
A poluição atmosférica representa um dos principais fatores de risco ambiental à saúde humana, sendo os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) constituintes com elevado potencial genotóxico e carcinogênico. O reteno (RET; 7-isopropil-1-metilfenantreno), HPA alquilado amplamente utilizado como marcador molecular da queima de biomassa, permanece pouco investigado quanto aos seus efeitos biológicos em modelos celulares humanos. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo avaliar os efeitos citotóxicos, genotóxicos e os impactos sobre o comprimento telomérico relativo induzidos pela exposição ao RET em células pulmonares humanas da linhagem A549, derivadas de adenocarcinoma pulmonar humano. As células foram expostas ao RET nas concentrações de 10, 30 e 60 ng/mL por 24 horas, sendo avaliadas quanto à viabilidade celular pelo ensaio de MTT, ao dano primário ao DNA pelo ensaio cometa alcalino, à instabilidade cromossômica pelo ensaio de micronúcleo com bloqueio da citocinese (CBMN) e ao comprimento telomérico relativo por reação em cadeia da polimerase quantitativa em tempo real (qPCR). No ensaio de MTT, a exposição por 24 horas não promoveu redução significativa da viabilidade celular em nenhuma das concentrações avaliadas, ao passo que, após 48 horas, foram observadas reduções estatisticamente significativas em todas as concentrações testadas (p < 0,05), caracterizando um efeito citotóxico dependente do tempo de exposição. O ensaio cometa alcalino revelou aumento significativo do percentual de DNA na cauda nas concentrações de 30 ng/mL (p = 0,0106) e 60 ng/mL (p < 0,0001), indicando indução de dano primário ao DNA em níveis subcitotóxicos. O ensaio CBMN demonstrou aumento significativo da frequência de micronúcleos nas concentrações de 30 ng/mL (p = 0,0305) e 60 ng/mL (p = 0,0003), bem como aumento na frequência de pontes nucleoplasmáticas na concentração de 60 ng/mL (p = 0,0282), evidenciando instabilidade cromossômica com perfil sugestivo de ação clastogênica. A frequência de brotos nucleares não apresentou diferença estatisticamente significativa em nenhuma das concentrações de RET avaliadas. A análise do comprimento telomérico relativo por qPCR revelou redução significativa da razão T/S em todas as concentrações avaliadas: 10 ng/mL (p = 0,0189), 30 ng/mL (p = 0,0009) e 60 ng/mL (p < 0,0001), com padrão progressivo conforme o aumento da concentração, em comparação ao controle negativo. A análise de correlação de Spearman entre o comprimento telomérico relativo e os biomarcadores de instabilidade cromossômica revelou associação inversa forte e significativa com a frequência de pontes nucleoplasmáticas (rₛ = -0,9161; p < 0,0001) e de micronúcleos (rₛ = -0,8983; p = 0,0002), indicando que o encurtamento telomérico induzido pelo RET ocorre em paralelo ao aumento de biomarcadores de instabilidade cromossômica. A associação com brotos nucleares apresentou apenas tendência, sem significância estatística (rₛ = -0,5744; p = 0,0540). De forma integrada, os resultados demonstram que o reteno é capaz de induzir dano primário ao DNA, instabilidade cromossômica e encurtamento telomérico relativo em células pulmonares humanas, em concentrações baseadas em estudos prévios e ambientalmente relacionadas, reforçando seu potencial genotóxico e a importância da avaliação integrada de múltiplos biomarcadores na caracterização dos efeitos associados à exposição a HPAs derivados da poluição atmosférica.