Interações entre vetor e hospedeiros na dinâmica de transmissão da Leishmania infantum em áreas endêmicas
Leishmania, Lutzomyia longipalpis, cães, saliva, parasitemia, pele.
O Rio Grande do Norte (RN) é área endêmica para a leishmaniose visceral (LV) humana e canina. A Leishmania infantum é o principal agente etiológico dessa doença. O ciclo de transmissão deste patógeno é antropozoonótico e o Lutzomyia longipalpis é o vetor de maior importância epidemiológica nas Américas. Durante o repasto sanguíneo o vetor libera fatores químicos contidos na saliva, que têm atividade anti hemostática, facilitando a sucção do sangue, mas também se mostrou um facilitador no processo de quimiotaxia dos macrófagos e neutrófilos. Estudos mostraram que a reexposição ao inseto vetor pode aumentar a transmissibilidade da Leishmania do hospedeiro mamífero infectado para o vetor. O presente estudo tem por objetivos determinar as principais fontes de alimentação, taxa de infecção vetorial por Leishmania infantum dos flebotomíneos em área endêmica para LV e o papel da saliva de Lutzomyia longipalpis em cães infectados por L. infantum. Para isso, foram coletadas 248 fêmeas de flebotomíneos por meio de armadilhas luminosas no peridomicílio de residências com as seguintes características: (1) domicílio com histórico recente de LV humana, (2) vizinhos próximos de um domicílio com LV humana e (3) domicílios sem histórico recente de LV humana recente. O DNA do intestino das fêmeas de flebotomíneos foi extraído individualmente e a infecção por L. infantum e fontes de alimentação foram identificadas por qPCR. Além disso, foram estudados cães com LV, triados pelo inquérito de vigilância da leishmaniose visceral canina da Unidade de Vigilância de Zoonoses (UVZ). O sangue periférico dos cães foi coletado antes da inoculação intradérmica de homogenato de glândula salivar de Lu. longipalpis ou salina na orelha dos cães. Transcorrido 24 horas, o sangue dos cães foi novamente coletado para avaliação de parasitemia e perfil das proteínas em plasma canino. A análise molecular detectou DNA de L. infantum em 56% dos flebotomíneos capturados. Domicílios com histórico de LV humana foram 3,73 (IC 95% = 1,64 a 8,48; p = 4,92e- 04) vezes mais propensos a apresentar DNA de L. infantum em intestino de flebotomíneos em comparação com os flebotomíneos capturados em domicílios sem histórico recente de LV. Múltiplas fontes de sangue foram detectadas, sendo o cão a principal fonte de alimentação nas três áreas estudadas. Ocorreu aumento significativo de L. infantum presente em sangue periférico após a inoculação com saliva de Lu. longipalpis (p=0.0034), diferentemente dos cães inoculados com solução salina. A concentração de Leishmania presente no DNA da pele, incluindo tecido da orelha e região axilar do lado contralateral, não inoculado com salina e saliva, foi maior nos dois grupos quando comparada com a quantidade de Leishmania presente na orelha esquerda, usada para inoculação. Ocorreu ainda, proliferação da Leishmania na forma amastigota, mediante presença de saliva de Lu. longipalpis. A análise da expressão diferencial de proteínas plasmáticas, revelou uma superexpressão de proteínas como fator V de coagulação e ApoE, 24 horas após exposição à saliva vetorial. Com base no exposto nós concluímos que há um importante reservatório de L. infantum nas proximidades das residências de casos humanos de LV e que os cães são as principais fontes de alimentação dos flebotomíneos nas áreas estudadas. Adicionalmente concluímos que a administração intradérmica da saliva de Lu. longipalpis causa um aumento da parasitemia em cães naturalmente infectados por L. infantum. Sendo assim a reexposição diária ao vetor, em áreas endêmicas, pode aumentar a infecciosidade dos hospedeiros. Esses achados corroboram para melhor compreensão da transmissão em áreas endêmicas da leishmaniose visceral e discussão de possíveis medidas de controle da LV.