Relação solo–relevo–vegetação em gradientes altitudinais em um ambiente serrano no semiárido brasileiro
Escarpas; morfogênese; pedogênese; caatinga; bacias de dissolução.
A Caatinga é um bioma caracterizado por condições climáticas semiáridas, marcadas por irregularidade pluviométrica, altas temperaturas e prolongados períodos de seca, fatores que impõem fortes restrições ao desenvolvimento da cobertura vegetal. No entanto, a organização espacial e a diversidade fisionômica da vegetação nesse domínio não podem ser explicadas apenas pelo clima, uma vez que condicionantes geoambientais locais, como relevo, solos e litologia, exercem papel fundamental na diferenciação das paisagens. Nesse contexto, esta dissertação teve como objetivo analisar as interações solo–relevo–vegetação em gradientes altitudinais no semiárido brasileiro, tendo como área de estudo a Serra do Lima, localizada no município de Patu, estado do Rio Grande do Norte. A Serra do Lima constitui um relevo residual granítico do tipo inselberg, desenvolvido sobre rochas neoproterozoicas da Suíte Itaporanga, inserido no contexto geomorfológico da Depressão Sertaneja Setentrional. A pesquisa foi fundamentada em uma abordagem geoambiental integrada, combinando levantamento bibliográfico, análise de bases cartográficas e elaboração de mapas temáticos de geologia, geomorfologia, solos, vegetação e uso e ocupação da terra em ambiente de Sistema de Informações Geográficas (SIG), com uso do software QGIS. Complementarmente, foram realizados trabalhos de campo, incluindo reconhecimento geomorfológico, levantamento da cobertura vegetal e descrição morfológica de perfis de solos em diferentes compartimentos da paisagem. Os resultados evidenciaram que a compartimentação do relevo e a dinâmica pedogenética exercem forte influência sobre a distribuição e a estrutura da vegetação. Nos
setores de topo e nas áreas com afloramentos rochosos, predominam processos morfogenéticos, resultando em solos rasos, descontínuos e frequentemente associados ao contato lítico, favorecendo o desenvolvimento de formações vegetais arbustivas, gramíneo-lenhosas e campos rupestres, com espécies adaptadas ao estresse hídrico e às limitações edáficas. Em contrapartida, nas encostas e áreas de menor declividade, onde ocorre maior convergência de fluxos e acúmulo de materiais, observou-se o desenvolvimento de solos mais profundos e com maior grau de evolução pedogenética, possibilitando o estabelecimento de formações vegetais de maior porte, com predomínio de fisionomias arbóreas e subarbóreas. Do ponto de vista pedológico, a identificação de solos relativamente profundos, com elevados teores de argila em alguns setores da paisagem, revelou a atuação significativa de processos de intemperismo químico, mesmo em um ambiente semiárido e sobre material de origem granítico. Esses resultados contrastam com a expectativa de predominância exclusiva de solos rasos e pouco desenvolvidos em ambientes serranos semiáridos, destacando a importância dos controles geomorfológicos e estruturais na gênese dos solos. A análise da vegetação demonstrou que a classificação oficial da Caatinga, baseada no conceito de savana-estépica, embora relevante em escala regional, apresenta limitações para explicar as variações fisionômicas observadas em áreas serranas. A abordagem integrada adotada permitiu reconhecer diferentes tipologias vegetacionais associadas às condições do substrato físico, reforçando a necessidade de incorporar os controles geoambientais na interpretação da paisagem. Conclui-se que a Serra do Lima apresenta elevada complexidade ambiental e funciona como um refúgio ecológico no semiárido brasileiro. A compreensão das interações solo–relevo–vegetação mostrou-se essencial para interpretar a dinâmica paisagística local e fornece subsídios importantes para o planejamento ambiental, a conservação da biodiversidade e o uso sustentável dos ambientes serranos no domínio da Caatinga.