"Se ele não se vê, como vai saber?" Memória, conhecimento e educação na comunidade quilombola de Capoeiras-RN.
Educação Escolar Quilombola(EEQ), Etnografia Etnoeducacional, Lei 10.639/03, Saberes ancestrais, Descolonização do currículo, Letramento racial crítico, Antropologia da Educação, Comunidade Quilombola de Capoeiras.
Esta dissertação investiga a implementação da Educação Escolar Quilombola (EEQ) na Comunidade Quilombola de Capoeiras (CQC), situada em Macaíba/RN, sob a perspectiva da Antropologia da Educação. O estudo parte da necessidade de compreender as tensões entre as conquistas legais, especialmente a Lei 10.639/03 e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola, e a realidade cotidiana vivida por moradores, lideranças e educadores mães de crianças que estudam dentro e fora do território. O objetivo geral deste trabalho é analisar como o processo educativo, tanto em espaços escolares quanto não escolares, é vivenciado na Comunidade Quilombola de Capoeiras (CQC), investigando as tensões entre as diretrizes legais e a realidade prática do território. O percurso metodológico envolveu uma pesquisa documental sobre as políticas públicas de igualdade racial, aliada a um trabalho de campo imersivo. Utilizou-se a observação participante como eixo central, complementada por entrevistas com perguntas abertas e fechadas e conversas informais que permitiram a recolha de relatos espontâneos. O registo da memória local foi viabilizado através de fotografias, gravações de narrativas e diários de campo, instrumentos essenciais para documentar a oralidade e manifestações culturais que configuram o território como um espaço de aprendizagem viva. Adicionalmente, realizou-se uma pesquisa bibliográfica para fundamentar o diálogo entre os dados empíricos e os conceitos de letramento racial e descolonização. Os resultados revelam um hiato significativo entre as conquistas legislativas e a prática pedagógica nas escolas frequentadas pelas crianças da comunidade. Observou-se que a estrutura escolar formal ainda opera sob modelos universais que ora dialogam com a identidade quilombola, resultando na invisibilização dos conhecimentos locais no ambiente de ensino. Por outro lado, através das narrativas e da observação do cotidiano, identificou-se que a educação não escolar, pulsante nas relações comunitárias e na transmissão geracional de saberes, funciona como o verdadeiro pilar de manutenção da identidade. O estudo demonstra que o processo de fortalecimento educativo ocorre de forma mais intensa nos espaços de vivência e resistência do que na estrutura institucionalizada.