“ENFIAR A LÍNGUA MESMO, BEIJAR MESMO E FODA-SE”:
CORTEJOS DE LIBERDADE SAPATÃO NO CARNAVAL DE OLINDA E RECIFE/PE
Esta tese investiga as práticas homoeróticas entre mulheres e dissidências LBTIPN+ no Carnaval de Olinda e Recife, analisando como o desejo se produz, circula e é regulado em um dos maiores eventos populares do Brasil. A partir de uma etnografia feminista implicada realizada entre 2023 e 2025 – baseada em observação participante intensiva, entrevistas, circulação cotidiana pelos blocos e envolvimento afetivo-corpóreo da pesquisadora – o estudo examina a pegação entre mulheres não como episódio festivo, mas como prática situada, atravessada por raça, classe, cisgeneridade, expressão de gênero, legibilidade corporal e territorialidade. A pesquisa demonstra que o Carnaval não opera como suspensão das normas, mas como dispositivo que torce a heterocisnormatividade por meio de liberdades táticas: formas parciais, desiguais e provisórias de experimentar desejo sob vigilância. Códigos de aproximação, consentimento situado, performatividades estéticas e pactos tácitos estruturam as possibilidades de flerte e erotização entre mulheres, revelando que a liberdade erótica é distribuída de forma desigual. Mulheres negras, masculinizadas e periféricas enfrentam maior risco de sanção moral, enquanto branquitude e feminilidade garantem maior margem de experimentação. O estudo analisa também o papel do rebuceteio e da não-monogamia tática, que reorganizam temporariamente regimes de exclusividade e permitem ensaios de outras formas de vínculo, sem dissolver normas. No plano político, a tese evidencia que blocos feministas e LGBTQIAPN+ não são “espaços seguros”, mas territórios de disputa permeados por apagamentos, tensões internas e hierarquias de visibilidade. No plano teórico, mobilizando epistemologias indígenas e decoloniais, o trabalho articula o conceito de corpo-território sapatão: uma articulação entre corpo, desejo, estética e espaço que explica como sapatões e dissidências não apenas ocupam o Carnaval, mas o produzem, inscrevendo territorialidades efêmeras de pertencimento e resistência. O capítulo analítico final demonstra que “sapatão” opera como categoria político-estética que transborda orientação sexual, funcionando como identidade de gênero, marcador territorial e tecnologia de reconhecimento – e que sua legibilidade é modulada por hierarquias raciais e de classe. Metodologicamente, a tese afirma a etnografia implicada como escolha epistemológica: não teria sido possível compreender o fenômeno com distanciamento. A reflexividade é tratada como ferramenta analítica, e o corpo da pesquisadora como operador de acesso, vulnerabilidade e produção de conhecimento situado. Conclui-se que as práticas homoeróticas entre mulheres e dissidências no Carnaval constituem formas de existência e produção de mundo que tensionam os limites das categorias hegemônicas de gênero, sexualidade e política. Longe de serem exceções carnavalescas, tais práticas revelam como o desejo pode ser exercício de liberdade tática, produção de território e crítica encarnada à colonialidade do gênero.