DO VENTRE AO TERRITÓRIO: PARTEIRAS TRADICIONAIS ENTRE CUIDADOS
COMUNITÁRIOS, REDES DE BEM-VIVER E RESISTÊNCIA À COLONIALIDADE
Parteiras tradicionais; Bem-viver; Colonialidade; Feminismos decoloniais.
A tese investiga o lugar das parteiras tradicionais na produção de saúde, vida e resistência nos territórios,
problematizando sua histórica subalternização frente à racionalidade biomédica e à colonialidade. Parte-se da
compreensão de que o partejar tradicional constitui uma prática complexa, que articula dimensões
comunitárias, espirituais, afetivas, políticas e ecológicas, sendo fundamental para a sustentação da
sociobiodiversidade. O primeiro estudo teve como objetivo analisar a relação entre o Estado brasileiro e as
parteiras tradicionais, por meio de uma pesquisa documental de leis, decretos e políticas públicas (1808–2022),
orientada pela análise discursiva construcionista. Os resultados evidenciaram a persistência de regimes de
nomeação hierarquizantes — como “leiga”, “curiosa” ou “prática” — que produzem efeitos de subalternização,
tutela e deslegitimação dos saberes tradicionais. O segundo estudo buscou compreender, a partir das
narrativas de cinco parteiras de diferentes territórios, como se estruturam seus modos de produzir cuidado,
sustentar redes comunitárias e resistir à colonialidade. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, narrativa e
relacional, inspirada na metodologia indígena do Yarning, com entrevistas narrativas e diários de campo. Os
achados revelam o partejar como prática integral, marcada por espiritualidade, ancestralidade, ética do cuidado
e atuação política nos territórios. O terceiro estudo, compõe-se de uma escrevivência inspirada na trajetória de
formação da pesquisadora como aprendiz de parteira, mãe e pesquisadora, construídas por meio de narrativas
de memória e cartas. A base teórico-epistemológica articula Psicologia Social crítica, estudos decoloniais e
feminismos decoloniais para compreender a colonialidade do poder, do saber, do ser e de gênero. Defende-se
o conhecimento como situado, relacional e atravessado por disputas históricas, afirmando o bem-viver como
horizonte ético-político. Conclui-se que, apesar do epistemicídio e das violências institucionais, as parteiras
seguem produzindo vida e resistência, configurando-se como sujeitas epistêmicas centrais na sustentação da
sociobiodiversidade nos seus territórios. A tese aponta para a necessidade de reparação histórica, justiça
epistêmica, reconhecimento institucional e construção de políticas públicas interculturais que garantam
autonomia e dignidade às parteiras