ENTRE O NORDESTE E O JAPÃO: COMPREENSÕES HERMENÊUTICAS SOBRE SER NIPO-BRASILEIRO NO RIO GRANDE DO NORTE
Nipo-brasileiro, Nordeste, Pesquisa fenomenológica-hermenêutica, Habitar.
A imigração japonesa no Brasil tem como início oficial o dia 18 de Junho de 1908, há mais de cem anos. Enquanto, no início, é tida como indesejável ou inassimilável, a população nipo-brasileira se tornou um dos argumentos para a “democracia racial” brasileira, como uma prova da inexistência de preconceitos e dificuldades nas vivências de pessoas racializadas. Enquanto um modo de ser, ser nipo-brasileiro é atravessado pelos sentidos históricos do mundo em que os sujeitos estão inseridos e pelas possibilidades de habitar que esse mundo lhes proporciona. No Brasil, em decorrência da caracterização racial se dar a partir dos traços físicos, fenotípicos, nipo-descendentes são identificados genericamente como “japoneses”, uma forma de não reconhecimento da identidade nipo-brasileira. Dessa forma, há um estranhamento que implica nipo-brasileiros a buscarem pessoas de mesma ascendência e associações culturais como forma de construir um habitar, um pertencimento. Contudo, isso se mostra como a realidade de indivíduos em regiões de presença nipônica mais forte, como Sul e Sudeste, e concentra o foco dos estudos nesse modo de ser nipo-brasileiro. A região Nordeste é apontada como uma das regiões com o menor número de habitantes nipo-brasileiros, refletindo em poucas associações culturais e menor possibilidade de contato entre grupos de nipo-brasileiros. Dessa maneira, essa pesquisa tem como objetivo compreender, à luz da fenomenologia hermenêutica de inspiração heideggeriana, a experiência de ser uma pessoa nipo-nordestina residente no Rio Grande do Norte. Para tanto, foram realizadas 4 entrevistas narrativas com adultos nipo-brasileiros que residem no Rio Grande do Norte. As entrevistas foram registradas no diário de afetações e analisadas a partir da adaptação da circularidade hermenêutica aplicada à pesquisa em psicologia. A partir das entrevistas, destaca-se como a possibilidade de encontro com outros nipo-descendentes representa não apenas a convivência social e cultural, mas a possibilidade de pertencimento existencial. O modo como o outro, não descendente, percebe o nipo-brasileiro também aparece nas experiências narradas, evidenciando o corpo nipo-descendente como diferente e não familiar, como também suscitando expectativas quanto a esse corpo, podendo limitar suas possibilidades. Ainda, desvela-se uma sensação de estrangeiridade presente nessa experiência, o que evidencia um questionamento de si e a ausência de segurança na própria terra natal, apontando para a condição fundamental do existir humano, ser estrangeiro na existência.