Entre fronteiras e saberes: atenção à saúde da população indígena Warao em Mossoró/RN.
Saúde de populações indígenas; Indígenas Sul-Americanos; Migrantes; Venezuela; Brasil.
Diante das transformações sociais, econômicas e políticas ocorridas na Venezuela, o Brasil consolidou-se como destino de migrantes e refugiados venezuelanos, entre os quais se destacam os indígenas da etnia Warao. Esses povos estabeleceram fluxos migratórios que resultaram em sua chegada ao município de Mossoró, no estado do Rio Grande do Norte, passando a vivenciar múltiplas situações de vulnerabilidade, especialmente no acesso à atenção à saúde. Desse modo, esta pesquisa objetivou compreender os principais entraves relacionados à atenção à saúde da população indígena Warao e da Equipe de Saúde da Família responsável pelo cuidado desse grupo em Mossoró/RN, Brasil. Trata-se de um estudo exploratório, transversal, descritivo, com abordagem qualitativa. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas abertas com quatro representantes do povo Warao, incluindo lideranças, parteiras e membros da comunidade, bem como com nove profissionais de saúde que atuavam diretamente na atenção a essa população. As entrevistas foram previamente agendadas e gravadas em áudio. Os relatos foram transcritos e analisados com base no referencial metodológico de Bardin, seguindo as etapas de pré-análise, exploração do material e análise categorial. Como resultados, observou-se que a inserção inicial dos Warao na rede básica de saúde foi marcada por barreiras linguísticas, choque cultural e dificuldades de compreensão do funcionamento do Sistema Único de Saúde. Com o decorrer do tempo, um processo de adaptação mútua entre indígenas e profissionais oi acontecendo, favorecido pela organização das ações de saúde no contexto do abrigo. Persistiram entraves relacionados ao determinante socioeconômico, fragilidades no acolhimento institucional, limitações na formação intercultural das equipes e tensões entre o modelo biomédico e as práticas tradicionais dos Warao. A Unidade Básica de Saúde foi reconhecida pelos indígenas como principal referência de cuidado, sendo valorizados o acolhimento, a proximidade e a competência técnica dos profissionais. Evidenciou-se a construção de um modelo de cuidado híbrido, integrando os saberes tradicionais indígenas, associados às práticas naturais e culturais, às práticas biomédicas presentes no serviço de saúde. Conclui-se que embora a unidade de saúde seja um espaço reconhecido como legítimo para o cuidado profissional e técnico, o acesso pleno à saúde é fragilizado pela barreira idiomática, o que gera incompreensões mútuas e riscos potenciais ao diagnóstico e tratamento. A qualificação da atenção à saúde dos Warao depende da adoção de práticas interculturais que promovam o diálogo, o respeito às diferenças culturais e a participação ativa da comunidade indígena no cuidado.