IMPACTOS DA FORMAÇÃO EM SAÚDE MEDIADA POR TECNOLOGIA DIRECIONADA AOS PROFISSIONAIS DO PROGRAMA MAIS MÉDICOS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE.
Educação Permanente. Formação Mediada por Tecnologia. Atenção Primária a Saúde. Programa Mais Médicos.
A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui a base do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil e demanda estratégias contínuas de qualificação da força de trabalho. Nesse contexto, a formação em saúde mediada por tecnologia tem se consolidado como uma alternativa potente para ampliar o alcance e a efetividade da Educação Permanente em Saúde (EPS). Esta tese teve como objetivo geral analisar os impactos da formação em saúde mediada por tecnologia, direcionada aos médicos do Programa Mais Médicos (PMM), sobre os processos de trabalho e os resultados em saúde na Atenção Primária à Saúde (APS). A investigação foi estruturada em quatro eixos, articulando diferentes abordagens metodológicas conforme cada etapa da pesquisa. Inicialmente, foi conduzido um estudo descritivo com análise de Ngramas aplicada aos planos de intervenção desenvolvidos por médicos participantes do Programa de Educação Permanente em Saúde da Família (PEPSUS), com o intuito de identificar temáticas prioritárias e estratégias adotadas nos territórios. Em seguida, realizou-se uma revisão de escopo, conforme a metodologia de Arksey e O’Malley e as diretrizes PRISMA-ScR, com busca sistemática em bases nacionais e internacionais e análise narrativa das evidências científicas sobre os impactos da educação permanente na APS no Brasil. O impacto da formação nos indicadores de saúde foi avaliado por meio de um estudo quase-experimental, com análise estatística de dados secundários provenientes de sistemas oficiais do SUS. A comparação entre municípios com e sem médicos formados pelo PEPSUS incluiu indicadores de processo e resultado, com estratificação por Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) e aplicação de testes de associação e correlação para identificação de efeitos significativos. Por fim, a etapa qualitativa envolveu entrevistas semiestruturadas com médicos do PMM, analisadas por meio da técnica de análise de conteúdo temática, possibilitando compreender perceções sobre potencialidades, fragilidades e contribuições do processo formativo. Os resultados revelaram que as intervenções realizadas pelos médicos se concentraram em áreas prioritárias da APS, como Saúde da Mulher, Saúde da Criança, Doenças Crônicas Não Transmissíveis e Saúde Mental, além de temas transversais como acolhimento e trabalho em equipe. A revisão de escopo evidenciou a predominância de estudos que avaliam mudanças nos processos de trabalho, mas revelou lacunas na mensuração de desfechos clínicos e nos impactos diretos da EPS nos indicadores de saúde. A análise dos dados secundários indicou correlações positivas entre a formação e indicadores como cobertura de pré-natal, rastreamento de câncer e vacinação infantil, com maior expressividade em municípios de alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), sugerindo que o contexto socioeconômico modera os efeitos da formação. Por fim, os participantes relataram que a formação a distância, ancorada em metodologias ativas e conteúdos contextualizados, foi significativa e aplicável, apesar de enfrentarem desafios. Conclui-se que a formação mediada por tecnologia, como a ofertada pelo PEPSUS, tem potencial para qualificar práticas assistenciais, reorganizar processos de trabalho e contribuir para melhores resultados em saúde na APS. Os achados reforçam a importância de estratégias de educação permanente integradas ao cotidiano dos serviços, considerando as desigualdades regionais e investindo em condições institucionais adequadas à aplicação do conhecimento. Esta tese contribui para o campo da Saúde Coletiva ao oferecer evidências empíricas sobre os efeitos da formação profissional no SUS, com repercussões para o aprimoramento das políticas públicas voltadas à qualificação e à fixação de médicos na APS.