DIFERENÇAS REGIONAIS E DE GÊNERO NAS TENTATIVAS DE SUICÍDIO E SUICÍDIO: UMA ANÁLISE DEMOGRÁFICA BRASILEIRA
Tentativa de suicídio; Suicídio; Demografia; Gênero; Mortalidade; Violência; Saúde Mental
O comportamento suicida resulta de uma complexa interação entre fatores individuais e contextuais. O gênero configura-se como um determinante crucial nessa análise, expressando o chamado "paradoxo do suicídio e gênero", no qual homens e mulheres manifestam esse comportamento de formas distintas, mediadas por construções sociais e papéis de gênero tradicionalmente estabelecidos. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo analisar a tendência temporal das taxas de tentativas de suicídio (2014 a 2023) e suicídios consumados (2010 a 2023) no Brasil, segundo gênero e região geográfica.Foi realizado um estudo ecológico de séries temporais com indivíduos com idade igual ou superior a 10 anos. Os dados de suicídio foram extraídos do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/DATASUS) e os de tentativas de suicídio, do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN/DATASUS). As taxas foram calculadas por 100 mil habitantes, padronizadas pela estrutura etária da população segundo o Censo Demográfico de 2022. A análise de tendência foi conduzida por meio de regressão Prais-Winsten, com cálculo da Taxa de Variação Percentual Anual (APC) e respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). As análises estatísticas foram realizadas no software R (v4.4.1), adotando o nível de significância de p< 0,05. Os resultados revelaram que as taxas de tentativas de suicídio são mais elevadas entre as mulheres, enquanto os suicídios consumados são mais prevalentes entre os homens, refletindo padrões diferenciados de letalidade dos métodos utilizados. Verificou-se aumento das taxas de tentativas de suicídio notificadas no Brasil entre 2014 e 2023. Ainda que sem diferença estatisticamente significativa entre os sexos, a tendência ascendente foi observada em ambos, com maior intensidade entre adolescentes e adultos jovens (10–19 anos), em comparação a idosos. Em relação aos suicídios, houve tendência ascendente em todas as regiões do país. Embora os homens apresentem as maiores taxas absolutas, o crescimento mais acentuado ocorreu entre mulheres jovens, especialmente por enforcamento: APC de 12,70% (IC95% 9,86–15,60) entre 10-14 anos e 9,51% (IC95% 7,60-11,50) entre 15-19 anos. Entre os homens, as APCs correspondentes foram de 6,03% (IC95% 4,44-7,64) e 5,29% (IC95% 3,05-7,57), respectivamente. Entre os idosos, embora as taxas sejam mais elevadas, as tendências foram estáveis ou em declínio. Destaca-se a redução nas taxas de autointoxicação entre mulheres com 60 anos ou mais (APC = -2,74; p < 0,001). Os achados evidenciam desigualdades etárias, regionais e de gênero no comportamento suicida no Brasil, com destaque para o crescimento entre mulheres jovens, sobretudo pelo uso de métodos letais, como o enforcamento. Os resultados indicam a necessidade de políticas públicas intersetoriais com abordagem sensível ao gênero, juventude e território, voltadas à prevenção, vigilância qualificada e atenção psicossocial.