ENTRE MODERNIZAÇÃO E RESISTÊNCIA: O SIGNIFICADO DAS SEMENTES CRIOULAS PARA AGRICULTORES FAMILIARES NO RIO GRANDE DO NORTE
Biopoder; Sementes tradicionais; Cosmovisão; Agroecologia; Autonomia camponesa; Agrobiodiversidade e Resistência camponesa
Mecanismos de poder, como políticas públicas, propagandas e discursos hegemônicos, reforçam a ideia de que só é possível produzir por meio da agricultura convencional e mecanizada. Em contraste, estratégias milenares de salvaguarda de sementes têm garantido a permanência dos camponeses na agricultura familiar e possibilitado a convivência com o semiárido por meio da agroecologia. As sementes crioulas, também chamadas de nativas ou tradicionais, recebem distintas nomenclaturas conforme o território, mas convergem em um significado central: constituem um patrimônio material e simbólico de agricultores familiares, camponeses e comunidades tradicionais que as conservam para manter, em seus territórios, a autonomia e a qualidade de sua alimentação.
Este estudo investiga os significados atribuídos às sementes crioulas por agricultores e guardiões do estado do Rio Grande do Norte (RN), Brasil, com ênfase nas dimensões simbólicas, políticas e territoriais envolvidas em sua conservação. A pesquisa adota abordagem qualitativa, articulada à perspectiva da pesquisa-ação, que valoriza a participação ativa dos sujeitos, o diálogo horizontal e a construção compartilhada do conhecimento. O trabalho de campo foi realizado em sete (7) dos dez Territórios da Cidadania do estado e envolveu entrevistas, grupos focais, participação em feiras e eventos por meio da observação direta. Os resultados indicam que as sementes crioulas são compreendidas como herança ancestral, instrumento de resistência frente à homogeneização agrícola e elemento fundamental na produção de alimentos saudáveis e na reprodução dos modos de vida camponeses. Emergiram categorias como valor histórico e geracional, melhoria da alimentação, fortalecimento das redes de troca e desafios relacionados à contaminação genética. Conclui-se que a conservação das sementes crioulas no RN se mantém em permanente resistência, apesar da força do agronegócio e das pressões por homogeneização.