ENTRE O SAGRADO E O PROFANO:
ENCARCERAMENTO ANAL DE PADRES ACUSADOS DE PRÁTICAS HOMOSSEXUAIS NOS DISCURSOS MIDIÁTICOS
Conservadorismo. Mídia. Cu. Homossexualidade. Padres.
A sexualidade, por muito tempo, tem sido um dos palcos centrais de debate em diversos campos e segmentos sociais, com ênfase na homossexualidade, historicamente tratada como “abjeta” e “profana” pelo conservadorismo cristão, que utiliza suas instituições religiosas como estruturas de poder e controle para docilização dos corpos dissidentes. Nessa perspectiva, o presente estudo teve como objetivo investigar como o encarceramento anal é discursivamente construído nos meios midiáticos, analisando seu enquadramento enquanto dispositivo de regulação da sexualidade no interior da Igreja Católica. Para tal, a pesquisa fundamenta-se em intersecções teóricas, mobilizando as concepções de corporeidade e erótica de Antonin Artaud (1974), Maurice Merleau-Ponty (2004), Michel Foucault (2008), Georges Bataille (2021) e Gilles Deleuze e Felix Guattari (2022), transitando pelas inferências de gênero, sexualidade, colonialidade e mídia a partir de Judith Butler (2019), Maria Lugones (2020) e Rita segato (2022). Incorporando-se com os aportes teóricos de Paul Preciado (2022), Javier Sáez, Sejo Carrascosa (2016), Muniz Sodré (2002/2014) e Leo Bersani (1987) sobre mídia, analidade, transgressão e contrassexualidade. O método adotado foi a arqueogenealogia, dividida em três etapas, a saber: a elaboração de uma arqueologia do cu; a construção de uma genealogia do cárcere anal e dos dogmas refletidos midiaticamente; e, por fim, a proposição de uma erótica do cu. A unidade de análise foi a plataforma X (antigo Twitter), onde foram examinados títulos, manchetes e comentários, numa análise observacional aliada à Análise do Discurso de inspiração foucaultiana (Foucault, 1996). Os resultados evidenciaram que o encarceramento anal é realizado discursivamente na Igreja Católica e midiaticamente operado por meio de mecanismos de sensacionalismo, estigmatização e acirramento da dissonância entre identidade e função religiosa. Os discursos, ao explorar casos envolvendo práticas homoeróticas de padres, alimentam a desconfiança generalizada em relação ao clero e sustentam uma imagem de hipocrisia institucional, onde o desejo, enquanto pulsão imanente à existência é mascarado, criminalizado e patologizado. O impacto midiático não apenas expõe as contradições internas da Igreja, mas reforçam e aumentam os dispositivos históricos de vigilância moral, reafirmando o cárcere simbólico imposto aos corpos desviantes. A mídia, ao amplificar tais narrativas sob molduras sensacionalistas, reatualiza a lógica inquisitorial contemporânea, onde o desejo de dar o cu permanece interditado entre o escândalo e a punição, configurando um espetáculo de controle e vergonha coletiva.