“DESCASCOU O MEDO PRA CABER CORAGEM”: FABULAÇÃO CRÍTICA E CONSTRUÇÃO DE IMAGINÁRIOS AFETIVOS NAS CANÇÕES DE LINIKER
Fabulação Crítica; Trans e travestis; Racialidade; Afetos; Liniker.
Os afetos e o amor constituem dimensões centrais da experiência social, ainda que suas formas de distribuição e reconhecimento sejam marcadas por desigualdades estruturais relacionadas a raça, gênero e sexualidade. No contexto brasileiro, corpos negros, trans e travestis foram reiteradamente posicionados às margens dos imaginários afetivos hegemônicos, tendo suas experiências atravessadas por processos de silenciamento e apagamento simbólico. Partindo dessa problemática, esta dissertação investiga como as canções da cantora brasileira Liniker elaboram e reconfiguram os regimes de amor e afeto associados a esses corpos no imaginário social brasileiro. O corpus é composto pelas canções Sem nome, mas com endereço (2016), Intimidade (2019), Baby 95 (2021), Psiu (2021), Veludo Marrom (2024) e Caju (2024), selecionadas por articularem recorrências temáticas relacionadas ao reconhecimento afetivo, à vulnerabilidade, ao desejo, à cura e à constituição de vínculos amorosos. O objetivo geral consiste em analisar as políticas do afeto presentes na obra da artista, compreendendo de que modo suas produções musicais participam da elaboração de imaginários sociais alternativos sobre amor, corpo e reconhecimento. Metodologicamente, a pesquisa fundamenta-se na análise qualitativa de letras, performances musicais e entrevistas, compreendidas como práticas discursivas e estéticas que articulam corpo, voz e experiência. Para isso, foram mobilizadas contribuições de autoras como Maria Lugones, Berenice Bento, Judith Butler, Carla Akotirene e bell hooks, com destaque para a Fabulação Crítica, de Saidiya Hartman, como método de pesquisa. Por fim, argumenta-se que a obra de Liniker permite traçar uma cartografia afetiva negra, trans e travesti, na qual suas canções funcionam como espaços de produção de sensibilidades e de imaginação fabulatória, abrindo horizontes para reconhecer o amor e o afeto a partir de perspectivas não hegemônicas e cisheteronormativas. Os resultados apontam que as produções musicais da artista elaboram uma gramática afetiva capaz de evidenciar outras possibilidades de vivência e expressão dos afetos.