PENSAMENTO PROPORCIONAL: DA ARTE DE TECER REDES DE DORMIR À ARTE DE APRENDER MATEMÁTICA NA ESCOLA
Tecelagem. Práticas sociais. Pensamento Proporcional. Teoria da Objetivação.
O presente estudo decorreu, especificamente, da formulação do seguinte problema de pesquisa: de que forma estudantes imersos em uma prática pedagógica, que visa à interlocução de saberes matemáticos e práticas sociais locais, tomam consciência desses saberes e práticas e ressignificam seu olhar, entendimento e relação com essa prática local? Assim, nos propomos compreender os saberes matemáticos relativos à proporcionalidade, mobilizados na produção de redes de dormir por uma comunidade de tecelões de Jaguaruana/CE, e analisar o desenvolvimento do pensamento proporcional de estudantes dessa comunidade, envolvidos em um processo de ensino e aprendizagem que visa o diálogo, reconhecimento e valorização desses saberes. Para atendimento ao objetivo proposto, tomamos como fundamentação teórica a Teoria da Objetivação e discussões relativas ao pensamento proporcional. Ademais, utilizaram-se procedimentos metodológicos da pesquisa qualitativa, participante, descritiva, interpretativa e de abordagem etnográfica, para analisar os dados produzidos em dois lócus de investigação no município de Jaguaruana/CE: casas de tecelagem e uma escola da zona rural. A constituição dos dados surgiu por meio de entrevistas dialogadas com oito tecelões que produzem redes de dormir, bem assim, a partir do desenvolvimento de um curso de extensão com 15 estudantes do 7º ano do ensino fundamental (12 a 13 anos de idade), os quais foram analisados em conformidade com os procedimentos metodológicos da análise multimodal. Nesta pesquisa, defendemos a tese de que as práticas sociais dos tecelões que produzem redes de dormir em Jaguaruana/CE contribuem para o processo de ensino e aprendizagem do pensamento proporcional, bem como para o reconhecimento e a valorização desses saberes, a partir de um projeto didático fundamentado na abordagem sociocultural da Teoria da Objetivação. Os resultados revelaram indícios de nós e contrações semióticas na atividade dos estudantes Amanda, Denise, Glauber, Nilo, Pedro, Valéria, Vitoriano e Wilson, ao discutirem problemas relacionados ao pensamento proporcional. Observou-se, ainda, atitudes de reconhecimento e valorização da prática tecelã, quando decidiram pesquisar e dialogar sobre a história da tecelagem local, produzirem uma pequena rede de dormir, criarem uma rede social destinada à divulgação das ações do projeto, bem como participarem da feira de jovens empreendedores da comunidade. Em suma, destacamos a relevância do projeto didático, que integrou as grandezas matemáticas utilizadas na tecelagem e o pensamento proporcional, levando-nos a repensar as práticas pedagógicas de matemática, permeadas pela realidade cultural e pelos saberes matemáticos historicamente constituídos.