A LABIRINTOGRAFIA PARA VER E LER UM CURRÍCULO NÃO ESCOLAR CISHETERONORMATIZADOR DE BEBÊS-CRIANÇAS
Gênero; Bebê-criança; Dispositivo Pedagógico Cisheteronormativo; Catálogo Virtual; Currículo Cultural não Escolar.
Esta tese, sob inspiração dos Estudos Culturais em Educação e na compreensão pós crítica de Currículo, toma como objeto de investigação o currículo de catálogos virtuais de produtos para bebês-crianças de duas lojas comerciais brasileiras. Para operar analiticamente o objeto engendrado articulam-se conceitos centrais como: gênero, compreendido na visão pós-estruturalista de linguagem; bebê-criança, a partir do entendimento de infância contemporânea; dispositivo como considerado por Michel Foucault e currículo cultural não escolar fundado nos estudos pós-críticos em currículo. A compreensão de currículo na vertente pós-crítica amplia a noção de currículo, podendo esse ser operacionalizado em distintas instâncias e instituições sociais e culturais, no caso desta Tese, visualizado e analisado em catálogos virtuais de duas lojas comerciais e suas respectivas seções endereçadas as bebês-crianças e seus responsáveis. O objetivo geral foi analisar como os catálogos virtuais de produtos voltados para bebês-crianças operam a serviço do dispositivo pedagógico cisheteronormativo para regular a constituição de sujeitos infantis e adultos. O argumento de tese defendido é o de que há um currículo nos catálogos virtuais de produtos para bebês-crianças que, a partir da reiteração de atributos e capacidades corporais binários, trabalha a serviço de um dispositivo pedagógico cisheteronormativo infantil mediante a dissimulação da androginia de bebês-crianças. Esse dispositivo é sustentado pelos ideais de uma cultura sexista, patriarcal, neoconservadora, como também, é alimentado e retroalimentado constantemente por meio das engrenagens do consumo. Para a metodologia optou-se por criar um método próprio denominado labirintografia, inspirada na etnografia virtual, etnografia clássica e relatos autobiográficos. Assim, por meio de uma labirintografia, elaboraram-se novos/outros catálogos que se materializam nos caminhos teórico-metodológicos desta tese não para vender, mas para ler o artefato cultural estudado, diferenciando se dos catálogos virtuais de vendas das duas lojas analisadas nesta investigação. Do ponto de vista analítico, foi possível empreender que o currículo investigado concorre para a cisheteronormatização de bebês-crianças, viabilizado, especialmente, pelos adultos, uma vez que esses são os que, majoritariamente, direcionam as condutas das bebês-crianças e esse direcionamento inicia antes mesmo do nascimento. As análises evidenciam lições sobre a cisheteronormatividade no currículo não escolar que se mantiveram sustentadas por quatro técnicas denominadas como: a técnica da estetização do gênero, operando com a ilustração generificada dos artefatos culturais para bebês-crianças; a técnica do dimorfismo sexual, funcionando pela modelagem binária da moda infantil; e a técnica da encenação binária, engrenada pela segmentação do brinquedo e do brincar de bebês-crianças; e a técnica da personificação, utilizando-se de estereótipos das figuras do faz de conta infantil; por fim, esse percurso não se encerra em si mesmo, mas abre outros caminhos possíveis no labirinto da pesquisa pós-critica em Educação e Currículo.