A CAPOEIRA NA CONSTRUÇÃO DE UMA PRÁTICA DECOLONIAL E NA RESSIGNIFICAÇÃO DOS PROCESSOS EDUCATIVOS NA ESCOLA
Capoeira. Educação antirracista. Decolonialidade. Linguagens. Educação Física.
Esta pesquisa discute os saberes da capoeira e da cultura afro-brasileira, bem como suas intersecções com a educação escolar. Partimos dos conceitos de múltiplas linguagens e dos saberes da tradição, historicamente produzidos, transmitidos e ressignificados pelas comunidades de capoeira, para problematizar a educação escolarizada que se consolidou em espaços de prestígio, reforçando hierarquias culturais e étnicas e invisibilizando conhecimentos populares, afro-brasileiros e indígenas. Como contraponto a essa lógica colonial, destacamos o surgimento de teorias educacionais contra-hegemônicas no país. É nesse contexto que identificamos a roda de capoeira como espaço simbólico plural, no qual diversos saberes e linguagens são mobilizados simultaneamente, constituindo um potente campo formativo e crítico. A problemática que orienta este estudo é: como ensinar capoeira na escola de modo a romper com práticas pedagógicas colonizadoras, promovendo uma abordagem antirracista, decolonial e fundamentada nos saberes da tradição, atravessada pelas múltiplas linguagens que compõem essa manifestação cultural? Neste sentido, nosso objetivo geral consiste em analisar possibilidades pedagógicas para o ensino da capoeira na escola sob uma perspectiva decolonial e antirracista, ancorada nos saberes da tradição e ampliada por múltiplas linguagens. Para tanto, definimos três objetivos específicos: 1) Mapear o uso das múltiplas linguagens no ensino da capoeira na Educação Física escolar, com base nos manuais do professor do PNLD 01/2022; 2) Analisar as potencialidades multimodais da capoeira no contexto escolar, a partir das experiências desenvolvidas no projeto Gingando Saberes: Capoeira Boa Vontade na Escola, compreendendo suas contribuições para a formação dos(as) alunos(as) em uma perspectiva decolonial; e 3) Apontar sínteses e atravessamentos entre as possibilidades pedagógicas identificadas nos manuais do professor e aquelas emergentes da experiência pedagógica desenvolvida, ambas atravessadas por múltiplas linguagens e por questões antirracistas e decoloniais. Para atender ao primeiro objetivo específico, realizamos pesquisa bibliográfica com foco nos manuais do professor do PNLD 01/2022, buscando mapear como as múltiplas linguagens são mobilizadas no ensino da capoeira. Em seguida, adotamos a pesquisa-ação como estratégia para desenvolver e analisar práticas pedagógicas de ensino da capoeira fundamentadas nos saberes da tradição. Essa etapa ocorreu na Escola Estadual Imperial Marinheiro (EEIM), em Natal/RN, nosso espaço de atuação profissional. Na primeira etapa, examinamos como os materiais didáticos oficiais abordam a capoeira e quais linguagens são acionadas para seu ensino. Na segunda, implementamos práticas pedagógicas no projeto Gingando Saberes, observando como os(as) estudantes se apropriam dos saberes da tradição e das linguagens que constituem a capoeira. O contraste entre essas duas frentes, material didático e prática vivenciada, permitiu identificar tensões, potencialidades e limites para a inserção qualificada da capoeira na escola. Os resultados permitem afirmar a tese que defendemos: o ensino da capoeira na escola, quando orientado por uma perspectiva decolonial e antirracista, sustentada nos saberes da tradição e atravessada por múltiplas linguagens, forma sujeitos críticos e, simultaneamente, transforma a lógica da Educação Física escolar. Assim, ao integrar capoeira, multiletramentos e uma abordagem decolonial, defendemos um projeto educativo que ultrapassa a transmissão de conteúdos e promove deslocamentos epistemológicos, subjetivos e políticos. Trata-se de recolocar no centro da escola saberes plurais, ancestrais e periféricos, possibilitando que estudantes se reconheçam como sujeitos de história, cultura e movimento.