UMA FENOMENOLOGIA DO LÚDICO NA EDUCAÇÃO: DIÁLOGO ENTRE JOHAN HUIZINGA E MERLEAU-PONTY
Lúdico, Fenomenologia, Educação, Corpo, Sensibilidade.
Trata-se de um estudo teórico-filosófico que investiga o fenômeno do lúdico na educação,
articulando um diálogo entre Johan Huizinga (1946, 2013, 2017) e Maurice Merleau-Ponty
(1983, 1991, 2006, 2014, 2018) para postular a tese de que o lúdico concebido como traço
ontológico do corpo estesiológico alarga a compreensão linear que o reduz a uma espécie
de resposta ao estímulo jogo ao reconhecer a expressão de saberes sensíveis como
vertigem, tensão, excitação, alegria, tristeza, prazer e frustração, ampliando os sentidos e
significados educativos das experiências do lúdico. Para tanto, interroga como se dá a
interface corpo, lúdico e educação à luz da filosofia do corpo de Merleau-Ponty e dos
escritos de Johan Huizinga sobre o Homo ludens. Esse diálogo não acontece de maneira
pontual, mas ao longo de todo o texto atravessado pelas contribuições de outros
pensadores como Morin (2001), Machado (2010), Santin (2001), para citar alguns. O
interesse pela temática em questão emerge do meu mundo vivido e da minha experiência
como professor de Educação Física, percebendo que o lúdico é frequentemente reduzido
ao universo infantil ou ao jogo, sendo negligenciado em práticas educativas tradicionais.
Nessa perspectiva, assumimos uma postura fenomenológica pautada no mundo vivido e
no relato das experiências lúdicas que marcaram e marcam a minha existência para
descrever a expressão do lúdico na minha existência, desde o relato de experiências
pessoais ao relato de experiências com os meus próprios filhos. Como pano de fundo para
as reflexões tecidas ao longo do texto acionamos a literatura e o cinema como dispositivos
do sensível. As figuras centrais dessa articulação com a literatura e com o cinema são o
Pequeno Príncipe, o Barão de Munchausen e a menina Sally. Por fim, os encontros e
desencontros provocados pelo diálogo proposto entre Huizinga e Merleau-Ponty, em
articulação com o movimento de redução fenomenológica e descrição do mundo vivido
vislumbram que o lúdico é um fenômeno encarnado, não determinado antecipadamente,
que se faz e refaz no encontro entre a carne do corpo e a carne do mundo; que o lúdico
não pertence apenas à criança ou ao primitivo, mas é uma dimensão ontológica do ser que
está presente também em adultos e civilizados, atravessando culturas e contextos. Assim,
uma compreensão ampliada do lúdico pode contribuir para superar práticas pedagógicas
reducionistas, valorizando o corpo, o movimento e a sensibilidade como elementos
centrais do processo educativo. Como sugestão de agenda para pesquisas futuras
indicamos a articulação teoria e prática, promovendo experiências lúdicas em todos os
níveis e contextos da educação.