AS REPRESENTAÇÕES DA CULTURA NO ORFANATO PADRE JOÃO MARIA: ASSISTÊNCIA E EDUCAÇÃO DE MENINAS POBRES NO RIO GRANDE DO NORTE (1920 - 1943)
Assistência; Educação feminina; Igreja e estado; Pobreza; Orfanato Padre João Maria.
Esta tese investiga as práticas de assistência e educação direcionadas a meninas pobres no Orfanato Padre João Maria, localizado no estado do Rio Grande do Norte, no período de 1920 a 1943. A partir da análise de documentos históricos, demonstramos que a instituição operava como um espaço educativo profundamente atravessado por estratégias e táticas articuladas entre os campos político, religioso e jurídico. Ancorado na análise documental como referencial teórico-metodológico (Aróstegui, 2004), este estudo mobiliza fontes que possibilitam uma leitura histórica da atuação institucional (Magalhães, 2004), articulando as representações políticas, sociais e simbólicas que conformaram sua existência (Chartier, 2002; Bourdieu, 2009). A pesquisa fundamenta-se em decretos governamentais (1920–1943) e nas edições do periódico católico A Ordem (1935–1943), com o objetivo de compreender como o orfanato foi impactado por diferentes conjunturas políticas, pela crescente influência da Igreja Católica e pelas transformações nas políticas públicas voltadas à assistência e à educação. No desenvolvimento da análise, discutem-se os fundamentos da filantropia (Marcílio, 2009; Rizzini, 1990) e os dispositivos de organização social da pobreza (Viveiros, 2011), operados a partir da lógica da biopolítica e da racionalidade econômica, bem como dos mecanismos de governamentalidade (Foucault, 2017). Examinamos também a maneira como a imprensa católica construiu e difundiu representações sobre a instituição — ora reforçando sua identidade religiosa, ora legitimando sua inserção no sistema educacional e nas práticas assistenciais vigentes. Os resultados revelam uma intrincada rede de relações entre Estado, Igreja e sociedade civil, evidenciando que o orfanato foi, ao longo do tempo, ressignificado tanto em suas funções quanto em suas representações. Se configurando, assim, como um objeto privilegiado para a compreensão das políticas de assistência à infância pobre e da educação feminina em contextos marcados pela forte imbricação entre religiosidade e poder público. Concluímos, portanto, que a instituição representou um avanço significativo para a consolidação das políticas assistenciais e educativas no Rio Grande do Norte, demarcando sua relevância histórica no processo de acolhimento, disciplinamento e formação para o trabalho das órfãs que ali eram assistidas.