MULHERES NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: UM ESTUDO SÓCIO-HISTÓRICO SOBRE ABANDONOS E RETORNOS ESCOLARES
Educação de Jovens e Adultos; Desigualdade de gênero; Mulheres; Trajetórias escolares.
Esta pesquisa teve como objetivo compreender a influência da desigualdade de gênero nas decisões de abandono e retorno à escolarização de mulheres inseridas na Educação de Jovens e Adultos. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, desenvolvida por meio de um estudo de caso realizado na Escola Estadual Desembargador Régulo Tinoco, localizada no município de Natal/RN. Como instrumentos de produção dos dados, foram utilizados questionários e entrevistas semiestruturadas, aplicados a mulheres matriculadas na EJA e a interpretação dos dados foi realizada por meio da Análise do Discurso de linha francesa, fundamentada nos pressupostos teórico-metodológicos de Michel Pêcheux. O referencial teórico do estudo fundamenta-se nas contribuições de Guacira Lopes Louro, Pierre Bourdieu, Paulo Freire e Álvaro Vieira Pinto. A análise evidenciou que a maioria das participantes teve sua trajetória escolar interrompida por fatores diretamente relacionados às desigualdades de gênero. Entre os principais motivos relatados destacam-se a maternidade precoce, a necessidade de assumir os cuidados de filhos e de familiares adoecidos, a sobrecarga com os afazeres domésticos e as exigências do trabalho, frequentemente associadas à necessidade de contribuir para a renda familiar. Esses elementos demonstram que a interrupção dos estudos não decorre de decisões individuais isoladas, mas de condições sociais que atribuem às mulheres responsabilidades desiguais e limitam suas oportunidades educacionais. Em relação ao retorno à escola, as participantes apontaram a educação como uma possibilidade concreta de transformação de suas vidas, associando a conclusão dos estudos à ampliação das oportunidades de trabalho, à conquista de maior autonomia, à valorização pessoal e à construção de melhores perspectivas para o futuro. Os resultados reforçam a importância da EJA como política pública de inclusão educacional e social, ao mesmo tempo em que evidenciam a necessidade de ações que considerem as especificidades das trajetórias femininas e enfrentem as desigualdades de gênero que ainda dificultam o acesso, a permanência e a continuidade dos estudos.