LIVRO DIDÁTICO E OUTROS MATERIAIS PRESENTES NAS PRÁTICAS COM A LINGUAGEM ESCRITA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: CONCEPÇÕES E FINALIDADES
Educação Infantil; Linguagem Escrita; Livro Didático; Materiais Pedagógicos; Abordagem Sócio-Histórico-Cultural.
Esta pesquisa investiga as concepções e finalidades que orientam o uso do livro didático e de outros materiais presentes nas práticas com a linguagem escrita na Educação Infantil. Parte do pressuposto de que os materiais pedagógicos não são neutros, mas expressam concepções de infância, aprendizagem, linguagem e desenvolvimento humano, influenciando diretamente experiências vivenciadas pelas crianças e os modos de inserção na cultura escrita. A investigação buscou responder à seguinte questão: quais são as concepções e finalidades que embasam as atividades realizadas com livros didáticos e outros materiais de leitura e escrita na Educação Infantil? O objetivo geral consistiu em analisar as concepções e finalidades que embasam essas práticas, compreendendo como a seleção e o uso dos materiais influenciam as experiências das crianças com a cultura escrita. O estudo fundamenta-se nos pressupostos da abordagem sócio-histórico-cultural, especialmente nas contribuições de Lev Vigotski para a compreensão dos processos de aprendizagem e desenvolvimento humano e de Mikhail Bakhtin para a compreensão da linguagem como prática social, histórica e dialógica. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, realizada em um Centro Municipal de Educação Infantil situado na região metropolitana de Natal/RN, tendo como participante uma professora de uma turma de pré-escola composta por crianças de cinco anos de idade. A produção dos dados ocorreu por meio de observações diretas das práticas pedagógicas, registros em diário de campo, fotografias, gravações de áudio e vídeo e análise dos materiais utilizados nas atividades de leitura e escrita. A análise dos dados evidenciou a presença de diferentes materiais pedagógicos, dentre eles livros de literatura infantil, jogos, cartazes, fichas de nomes, atividades xerocopiadas, materiais confeccionados pela professora e livro didático. Os resultados foram organizados em dois eixos: o primeiro aborda as concepções que orientam as práticas de leitura e escrita na rotina pedagógica; o segundo analisa a seleção e o uso do livro didático e de outros materiais presentes nessas práticas. Os dados revelaram que o livro didático e as atividades xerocopiadas ocupam lugar de destaque em parte significativa das experiências com a linguagem escrita, frequentemente associados a propostas voltadas ao reconhecimento de letras, sílabas e palavras, aproximando-se de práticas de caráter preparatório para o Ensino Fundamental. Ao mesmo tempo, observou-se a coexistência de práticas que favorecem a interação das crianças com diferentes materiais e experiências lúdicas de leitura e escrita. Conclui-se que a escolha e o uso dos materiais pedagógicos estão diretamente relacionados às concepções que orientam a prática docente, podendo tanto ampliar quanto restringir as possibilidades de participação das crianças na cultura escrita. A pesquisa também revelou que a seleção dos materiais pedagógicos, frequentemente tratada como aspecto secundário do planejamento, exerce papel decisivo na constituição das experiências das crianças com a cultura escrita. O estudo aponta para a necessidade de problematizar criticamente o uso do livro didático e a atividades xerocopiadas na Educação Infantil. Conclui-se que o fortalecimento de práticas contextualizadas, fundamentadas na abordagem histórico-cultural, demanda processos permanentes de formação docente que favoreçam a compreensão dos materiais como mediadores culturais e das práticas de leitura e escrita como práticas sociais, culturais e significativas, assegurando às crianças o direito de vivenciar experiências que respeitem suas especificidades, seus modos de aprender e sua condição de sujeitos históricos, sociais e produtores de cultura.