O Cordeiro e o Dragão: as cartas de Artaud em Rodez
Artaud; cristianismo; gnosticismo.
Durante a época em que passou no asilo de Rodez (1943-1946), Antonin Artaud escreveu cartas para amigos, familiares e médicos. Escritas num estado de guerra interior contínua, essas cartas revelam uma relação conflituosa e intensa com o cristianismo católico. O vínculo do escritor francês com o catolicismo remonta à sua infância marselhesa e ganha contornos cada vez mais dramáticos a partir de sua viagem à Irlanda. Em Rodez, Artaud desenvolve uma religiosidade herética de bases gnósticas, que defende com unhas e dentes diante de seus interlocutores: nessa perspectiva, em que o cosmos é per se um campo de batalha onde as forças demoníacas existem como matéria física, o corpo, a personalidade e a sexualidade são problematizados. No entanto, após alguns anos de fervorosa religiosidade, Artaud volta-se contra Deus e Jesus Cristo, renunciando a toda forma de religião. Sua ligação com os conteúdos religiosos, portanto, não é redutível à loucura nem esboça uma linha reta. Estrada de idas e vindas, mostra uma obsessão dualista que perturba e organiza o universo do poeta.