AVALIAÇÃO DA INSTABILIDADE GENÔMICA E CICLO CELULAR EM MULHERES COM ENDOMETRIOSE
Endometriose; Instabilidade genômica; Ciclo celular; Infertilidade; Biomarcadores
A endometriose é uma doença ginecológica inflamatória crônica e multifatorial que acomete cerca de 10-15% das mulheres em idade reprodutiva, estando associada à dor pélvica crônica, infertilidade e prejuízo na qualidade de vida. Evidências recentes sugerem que a instabilidade genômica e a desregulação do ciclo celular desempenham papel central na fisiopatologia da doença. Esta pesquisa teve como objetivo avaliar biomarcadores de instabilidade genômica (necrose, apoptose, micronúcleos, pontes nucleoplasmáticas e brotos nucleares) e alterações no ciclo celular em mulheres com endometriose, correlacionando-as com o grau da doença, fertilidade, tratamento hormonal e presença de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs). Trata-se de um estudo observacional, transversal, realizado com 83 mulheres com endometriose, submetidas a um questionário para obtenção de dados clínicos e sociodemográficos, e à coleta de sangue periférico para realização do ensaio do micronúcleo com bloqueio da citocinese (CBMN) e a análise das fases do ciclo celular (G1, S e G2) por citometria de fluxo. Observou-se correlação negativa entre o grau da endometriose e infertilidade (ρ=-0,6891; p<0,05). Verificou-se menor percentual de células na fase G1 em mulheres inférteis e na fase G2 em mulheres com DCNTs, sugerindo falha dos checkpoints G1/S e G2/M (p<0,05). Análises adicionais demonstraram efeito protetor da fase G1 e associação positiva da fase S com a formação de pontes nucleoplasmáticas, indicando que a progressão para a síntese de DNA em um ambiente inflamatório favorece o estresse replicativo e a formação de alterações cromossômicas estruturais. Foi observado o efeito potencialmente protetor do progestagênio, associado a maior frequência de apoptose e menor atividade proliferativa com o seu uso, bem como o aumento progressivo de células na fase S conforme o agravamento do grau da doença, embora os achados não tenham alcançado significância estatística (p > 0,05). Por fim, este estudo, pioneiro na análise integrada de múltiplos biomarcadores e parâmetros do ciclo celular em mulheres com endometriose, fornece evidências de que alterações na estabilidade genômica e no controle do ciclo celular podem estar implicadas na fisiopatologia da doença, estabelecendo correlações clínicas inéditas. Os achados reforçam a relevância de abordagens celulares e moleculares para a compreensão da endometriose como uma condição sistêmica e apontam para o potencial desenvolvimento de biomarcadores não invasivos para diagnóstico e monitoramento clínico.